quarta-feira, 12 de maio de 2010

Sugestões


A análise do discurso e dos discursos de Oliveira Salazar na dissertação do mestrado de José Martinho Gaspar. Convém não esquecer:
«Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e a sua História; não discutimos a autoridade e o seu prestígio; não discutimos a família e a sua moral; não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.»
Era um tempo de certezas...
[FTM]

sábado, 8 de maio de 2010

Sugestões II


Se gosta de História e de pequenas histórias de pessoas reais, vai gostar deste livro de José Pedro Castanheira que, após uma exaustiva investigação, nos relata o que foi a vida de Ayres Azevedo, um «cientista português no coração da Alemanha nazi» dedicado a investigar «ciências raciais», «higiene racial e demográfica» e «anormalidade em cruzamentos raciais»
Regressado a Portugal, curiosamente, foi maltratado pela Academia...
[FTM]

Sugestões I

O MES foi um movimento político que nasceu, se desenvolveu e morreu entre 1970 e 1981. Situado, em termos tradicionais, na extrema esquerda não marxista-leninista, nele militaram personalidades tão variadas quanto Jorge Sampaio, Nuno Teotónio Pereira, José Galamba de Oliveira e Ferro Rodrigues. E um mestre que nos abandonou demasiado cedo: Victor Wengorovius.
Este livro relata-nos essa "improvável aventura" através da pena de dois dos seus recomendáveis militantes: Paulo Bárcia e António Silva.
A ler, especialmente se viveu com interesse e intensidade, o pós-25 de Abril de 1974.
[FTM]

Acção directa

O deputado Ricardo Rodrigues ao apossar-se do gravador dos jornalistas da revista Sábado por não estar a gostar da entrevista dá, pelo menos, a noção da desorientação em que estava. Ao intentar uma providência cautelar e ao entregar o gravador a um "fiel depositário", como foi dito, está a "fugir para a frente" e a contribuir para a judicialização da política.
Embora este episódio possa não ser mais do que um "fait divers" é, seguramente, um lamentável "fait divers"...
[FTM]

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Sugestões

A tese de doutoramento do Pe. João Seabra, que é também licenciado em Direito, passa a ser um livro essencial para quem se interessa pela 1.ª República e pelo anticlericalismo.
Confesso que ainda só o folheei mas sei, pelo menos, duas coisas:
1. É um livro bem escrito, cheio de informação útil e que toma partido;
2. Irei discordar de muitos dos seus pressupostos, opiniões e conclusões.
Recomendo, pois, sem quaisquer dúvidas, a sua leitura .
[FTM]

Sugestões


Churchill dizia que era o pior regime, com a excepção de todos os outros. John Keane, em Vida e Morte da Democracia (Edições 70), concorda, traçando uma história da democracia desde os Gregos até hoje. Deixa avisos. Os mesmos que Tocqueville deixou há quase dois séculos: nenhuma democracia sobrevive sem vigilância permanente. Uma lembrança apropriada, sobretudo com evidências destas.
[JPC]

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Lá como cá...

Sarkozy anuncia que quer que deixem de ser pagas as prestações sociais aos pais que não garantam a assiduidade escolar escolar dos filhos.
O problema, parece, é que a medida já está prevista na lei, com um pequeno interregno, há mais de 50 anos mas não é eficaz, nem útil nem justa, correndo-se o risco de, na situação de crise económica em que vivemos, empurrar para maior miséria ... alguns miseráveis.
Basta pensar que as razões para o absentismo podem ser diversas para se vislumbrar as injustiças possíveis. E não será o corte das prestações sociais que irá ressuscitar a autoridade na família. Se quiser saber um pouco mais sobre o assunto, aconselho uma visita ao Libération.
[FTM]

Sugestões


Inspirados pela nova-iorquina The New Criterion (pessoalmente, a melhor revista highbrow do mundo), jovens intelectuais paulistanos ergueram a Dicta & Contradicta. Para aperitivo, a malta tem um blogue.
[JPC]

«Intolerâncias»

Como seria de esperar, a visita do Papa a Portugal já deu origem a uma pequena e comovente polémica sobre a tolerância de ponto decretada pelo Governo. Os fanáticos do costume decretaram que pretendiam trabalhar nesses três dias a bem da separação do Estado e da Igreja e – pasme-se – em prol da produtividade nacional que, na sua douta opinião, não pode ser abalada pela visita de um "líder religioso qualquer" que decida deslocar-se ao nosso país. Até a CIP e as centrais sindicais, esses pilares da nossa economia, se pronunciaram patrioticamente contra a decisão tomada pelo Governo, alertando para a crise em que vivemos e para a necessidade dos funcionários públicos contribuírem, com o seu trabalho, para o aumento da produtividade e para o desenvolvimento da pátria.
É evidente que este reconhecimento súbito do estado em que nos encontramos não deixa de ser salutar, sendo de esperar, nomeadamente por parte dos sindicatos, exemplos futuros de responsabilidade e compreensão pela situação em que se encontram as finanças públicas e a economia portuguesa. Custa-me a crer que sindicalistas, tão atentos aos custos da visita do Papa, se entretenham depois a promover greves que, para além de não levarem em linha de conta a crise em que nos encontramos, não contribuem certamente para o dito aumento da produtividade. Tudo isto seria um pouco ridículo – e é – se por trás destes nobres objectivos não se escondesse o velho preconceito contra a Igreja e o zelo anticlerical de meia dúzia de figuras públicas, sempre em busca de crucifixos nas escolas e de outros sinais religiosos no espaço público. Ao contrário do que tem sido dito, o que está em causa não é a neutralidade do Estado em relação às diversas religiões, mas a incapacidade de perceber que, num país de tradição católica, o Papa não é um "líder religioso qualquer", como tem sido amplamente referido.
Pretender equipar a visita de Bento XVI à visita de qualquer outro líder religioso (hindu ou muçulmano, como já vi defender) é não compreender a realidade portuguesa e desconhecer totalmente a sua história. Há uma ligação entre o País (e o ocidente, em geral) e a Igreja que um Estado laico deve saber reconhecer. Um Estado laico não é sinónimo de um Estado anti-religioso, incapaz de compreender a dimensão pública da fé. E a crer nalgumas coisas que por aí têm sido escritas, dá ideia de que o Papa, não lhe sendo retirado o direito de viajar pelo mundo, devia ter, pelo menos, a decência de o fazer clandestinamente. De forma a não importunar ninguém. Porque o problema é que este Papa, em particular, importuna.

[CCS, Correio da Manhã]

Sugestões


Uma leitura emocionante através de uma viagem pelo interior da vida de um ditador e de uma ditadura sul-americana. Ingenuidade, perversão, maldade, raiva e ódio entre outros ingredientes. O livro já tem uns anos mas, se não o leu, pode agora comprá-lo por 7,50 euros. Não se arrependerá.
[FTM]

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Sugestões


" As cartas da condessa de Rio Maior permitem-nos reconstituir alguns acontecimentos importantes da História de Portugal e perceber a forma como a alta aristocracia se comportava. Poucas mulheres da sua classe saberiam observar como ela observou, pensar o que ela pensou, escrever como ela escreveu" (Maria Filomena Mónica).
O século XIX tem a vantagem de ser suficientemente longe para ser História e ser suficientemente perto para (quase) sermos testemunhas...
[FTM]

domingo, 11 de abril de 2010

Arranjos económicos, arranjos políticos, arranjinhos









Por que será que quando ouço um empresário português discretear sobre as soluções para os arranjos económicos (não sobre a economia), ouço também — como uma espécie de ruído de fundo – os arranjos políticos que lhe estão na base? Por outro lado, quando um empresário se propõe defender os interesses do Estado, é como se ele estivesse realmente lá dentro, manobrando a máquina propriamente dita. Golden share é isto mesmo: «Ai o que será de nós se se acaba a golden share?»
[FJV]

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Sugestões

Música de fusão ? Talvez ...
Música de sedução ? De certeza !
A guitarra portuguesa e a cítara, de cordas dadas, criaram neste "Lis Goa", um universo sonoro e visual que vale mesmo a pena percorrer. Para além de mestre António Chainho, pode contar com muitos outros músicos e intérpretes nesta viagem com partida de Portugal, passagem pela Índia e regresso ao nosso país.
Raimund Engelhardt, Paulo Sousa, Natasha Lewis, Isabel Noronha, Tiago Oliveira, Carlos Barreto Xavier e Sónia Shirsat são os co-responsáveis por estes momentos de encantamento que se recomendam vivamente.
[FTM]

quarta-feira, 31 de março de 2010

Sugestões


Já tinha saudades de Isabelle Adjani. Já tinha saudades de Isabelle Adjani em filme competente sobre professora de liceu que sequestra a turma em momento psíquico e existencial de não-retorno. Numa altura em que Portugal fala da indisciplina escolar, O Dia da Saia talvez sirva de aviso.
[JPC]
P.S. - Na Folha, escrevi texto longo sobre o filme. Para os interessados, follow me.

Sugestões


Esta Páscoa não perca todo o seu tempo a ler livros existencialistas. É certo que é sempre bom procurar um sentido para a vida e mesmo encontrá-lo mas também é muito agradável vivê-la sem nenhum sentido. Ou melhor, com um ligeiro sentido musical...
Pode escolher ou acumular: os 4 cd's de Yehudi Menuhin & Stéphane Grappelli são uma edição em promoção, à venda em qualquer loja de discos perto de si, com dezenas de memoráveis adaptações e arranjos musicais.
Já o disco "Evelyn Evelyn" é uma obra que, para já, terá de encomendar no site oficial destas gémeas fictícias que nos trazem uma divertida história e festa musical cheia de humor (negro) e alegria (roxa). Poderá não ser Santa mas será, concerteza, uma Excelente Páscoa...
[FTM]

segunda-feira, 29 de março de 2010

«A receita»

«Esperava uma vitória de Pedro Passos Coelho. Não esperava uma vitória tão folgada. Existem diferenças. Com uma vitória modesta, Passos Coelho teria vários abutres a pairar sobre a sua carcaça. Com uma vitória folgada, Passos Coelho não se limitou a espantar as aves. Ele enfiou-as na gaiola para os próximos tempos: Marcelo continuará na universidade (e no comentário) até às presidenciais de 2016; Rangel rumará para Bruxelas; e Rio ficará no Porto, descendo à capital apenas se a liderança de Passos Coelho falhar. E, para falhar, basta que o novo líder repita os erros do consulado anterior, afastando inimigos internos e diabolizando os externos.
Se afastar os inimigos internos, Passos Coelho fará com os outros o que Ferreira Leite fez com ele: uma espécie de nobilitação à dissidência. E se apostar no atrito político para derrubar Sócrates, o novo PSD estará a fazer um favor ao velho PS. Porque será a economia, e não a política, a selar o destino do primeiro-ministro.
Esperar sem se comprometer podia não ser a receita do ‘jovem’ Passos Coelho. Resta saber se o ‘jovem’, entretanto, vai crescer.»

[JPC, Correio da Manhã, 28/3/2010]

quarta-feira, 24 de março de 2010

Google v. China

A Google decidiu acabar com o "casamento de conveniência" com as autoridades chinesas que permitia a censura das buscas feitas através do Google China. A partir de agora, as buscas são redireccionadas para o site da Google em Hong-Kong sem censuras.
Claro que as autoridades chinesas podem bloquear o acesso a esse site e, por isso mesmo, a Google criou uma página com um gráfico onde se pode acompanhar diariamente o tipo de dificuldades criados pelas autoridades chinesas no acesso a diverso tipo de serviços.
É uma decisão que indiscutivelmente se deve aplaudir, independentemente de poder, também, ter sido influenciada pelos resultados menos brilhantes que a Google tem tido no mercado chinês.
PS. Na nossa tradição portuguesa, nunca podemos dizer bem de nada nem de ninguém, sem logo referir uma qualquer mácula, mesmo que de um passado longínquo, do elogiado ...
[FTM]

terça-feira, 23 de março de 2010

«Três saídas»

«O PS faz lembrar aquelas famílias onde não há pão e todos protestam sem ninguém ter razão. Que nos diz a ala esquerda do partido? Diz-nos que Sócrates se transformou num terrível ogre de direita, disposto a cortar prestações sociais e a atraiçoar o legado do PS. Só faltava mesmo acrescentar que esse legado conduziu o País à situação de decadência económica que o PEC, coitado, não conseguirá evitar.
E não conseguirá evitar porque o documento é uma colecção de remendos para tapar o buraco das contas públicas. Sobe-se aqui (impostos), corta-se ali (subsídios vários), vende-se mais além (privatizações) e, nos intervalos, reza-se: para que a economia, que não cresceu em tempos de vacas gordas, desate agora a crescer no tempo das magras. No meio do circo, não existe uma única ideia consequente sobre a necessidade de redimensionar um Estado que consome de mais, faz de menos e gasta o que não pode.
Como diria um conhecido economista brasileiro, os portugueses de hoje têm três saídas: a liberalização do Estado; o Aeroporto da Portela; ou o Aeroporto Sá Carneiro. O resto é ruído.»

[JPC, Correio da Manhã, 20/3/2010]

domingo, 21 de março de 2010

Sugestões

"O Rolando tinha uns cinquenta anos e vivia há mais de trinta nos jazigos do cemitério de Avellaneda. Era por isso que quase ninguém o levava a sério. E mais ainda quando estava bêbedo. Eu, pelo contrário, pensava que as pessoas podem viver onde lhes apetecer".
"Estávamos no Verão, um ano depois do nascimento da minha maninha. Tinhamos juntado cerca de cem pesos para ir à Villa Mariel e estrear-nos com uma puta. Demorámos um mês a vender as rifas de um cabaz familiar a um peso cada uma, dizendo que precisávamos de dinheiro para comprar camisolas para nossa equipa".
Recomendam-se estas aventuras de um "puto" pobre argentino contadas pelo próprio...

[FTM]

terça-feira, 16 de março de 2010

O Congresso e a Rolha

Constituem deveres dos militantes do PSD, nos termos da alínea f) do n.º1 do artigo 7.º dos Estatutos , "ser leal ao Programa, Estatutos e directrizes do partido, bem como aos seus Regulamentos".
A violação deste dever por parte de um militante passou a ser considerada uma "infracção grave, especialmente quando a mesma se consubstanciar na oposição às directrizes do Partido no período de sessenta dias anterior à realização de actos eleitorais nos quais o PPD/PSD apresente ou apoie candidatura" e dará direito à suspensão do militante até dois anos ou à sua expulsão.
Esta alteração estatutária, apresentada ao XXXII Congresso Nacional por Pedro Santana Lopes, como sempre pouco crente no valor da liberdade de expressão, é lamentável e inútil. Mas não é estalinista.
O seu a seu dono.
[FTM]

Sugestões

" A esplanada estava vazia. No restaurante, mais concorrido, vi Frau Else. Instalada numa mesa perto do balcão, dois homens de fato e gravata faziam-lhe companhia. Não sei porque é que pensei que um deles era o seu marido, ainda que a imagem que guardava dele em nada se parecesse com aquele. Tratava-se sem dúvida de uma reunião de negócios e não quis importunar. Também não desejava mostrar-me tímido e com este propósito aproximei-me do balcão e pedi uma cerveja. O empregado demorou mais de cinco minutos a servir-ma. A sua morosidade não obedecia ao excesso de trabalho, que até era pouco."
Ou ainda, "Jantámos no Costa Brava. Como era de prever, o jantar acabou por não ser animado. Frango com puré de batata e ovos estrelados, salada, café e gelados, que os empregados de mesa, a par do que estava a contecer (na realidade éramos o alvo de todos os olhares), nos serviram com uma afabilidade fora do comum. O nosso apetite não diminuiu".
Um permanente mal estar muito bem escrito...
[FTM]

segunda-feira, 15 de março de 2010

Sugestões



Será possível realizar um filme sobre a guerra do Iraque que não seja um filme sobre a guerra do Iraque? Afirmativo. Kathryn Bigelow conseguiu-o: uma obra de guerra e sobre a guerra sem as piedades panfletárias da praxe. Ganhou o óscar. Mereceu. O DVD já chegou a Portugal.
[JPC]

«Creche e aparece»

«Quantos dias terá o Congresso do PSD? Pessoalmente, o Congresso podia acabar poucas horas depois de começar. Com o discurso de Manuela Ferreira Leite. O que virá a seguir será com certeza babugem eleitoralista e inútil.
O discurso de Ferreira Leite, pelo contrário, foi simultaneamente triunfal e trágico. Triunfal, porque foi possível ver, talvez pela última vez, uma mulher sem carisma mediático a repetir o que hoje é consensual: o Estado caminha para a falência; os partidos estão em descrédito; o regime está atolhado em falsidades. Mas quem, há cinco meses, esteve interessado em ouvir este sermão?
O lado trágico está aqui: as eleições não se ganham com verdades; ganham-se com mentiras porque os portugueses preferem-nas. E se existiu erro no consulado de Ferreira Leite foi o de sobrevalorizar a maturidade dos portugueses; a crença ingénua de que era possível falar para adultos. Não é.
Para regressar ao poder, não basta ao PSD eleger um líder e esperar que o eng. Sócrates caia da cadeira. É preciso nivelar o discurso com a idade mental do eleitorado.»

[JPC, aqui]

sábado, 13 de março de 2010

Avisam-se as tropas...

... que o «Torto» vai ao Congresso. Se, evidentemente, ainda houver Congresso quando os quatro lá chegarem.

terça-feira, 9 de março de 2010

«Ausência de alternativa»

«Costuma-se dizer por aí que não é a Oposição que ganha as eleições mas sim o Governo que as perde. A fazer fé nesta tese, bastaria à Oposição ficar quieta e em sossego para que o poder, mais tarde ou mais cedo, lhe viesse parar docemente às mãos sem mérito, nem esforço e sem sombra de qualquer projecto alternativo. Numa situação destas, as eleições, como é óbvio, não seriam mais do que um expediente formal que legitimariam, com o voto, uma situação sem saída.
É verdade que, nos últimos tempos, as demissões extemporâneas do eng. Guterres e do dr. Durão Barroso vieram dar corpo a esta tese. Com os lindos resultados que se viram, diga-se de passagem. Mas estes dois exemplos – e, se quiserem o do prof. Cavaco Silva que decidiu não se recandidatar em 95 – não justificam, por si só, uma tese que assenta, antes de mais, num dado nem sempre adquirido que é a demissão do primeiro-ministro. Basta ver o resultado das últimas eleições legislativas para se perceber que as coisas não funcionam assim de forma tão simples: embora o PS tenha perdido a maioria absoluta e um número significativo de votos, o PSD não só não beneficiou disso como teve um dos piores resultados de sempre.
Porque o povo é estúpido, como afirma Vasco Graça Moura? Não, porque os eleitores, na sua maioria, não viram no PSD uma alternativa ao Governo do eng. Sócrates, nem se reconheceram na campanha eleitoral do partido – uma campanha de tal forma desastrada que, agora, tarde e a más horas, até o dr. Paulo Rangel, o presumível herdeiro da dra. Ferreira Leite, achou por bem distanciar-se da estratégia adoptada para as legislativas.
Neste sentido, a sondagem publicada, na semana passada, pelo ‘Público’, onde a maioria dos inquiridos considera que o eng. Sócrates mentiu ao Parlamento sem que isso os impeça de lhe dar uma maioria folgada nas legislativas, caso estas se realizassem agora, também dá que pensar. Porque o povo não é muito sensível à mentira? Porque acha que todos mentem? Porque não tem particular apreço pelo Parlamento e por tudo o que por lá se passa? Haverá de tudo isto um pouco. Mas basta olhar para a campanha interna do PSD para se perceber que o partido não é mais do que um poço de intrigas, dominado pelo aparelho e por meia dúzia de baronetes que se julgam imunes a toda e qualquer responsabilidade.
O resultado é um espectáculo penoso entre três candidatos que não se distinguem por uma ideia e se desdobram nas mais despropositadas propostas. Um partido assim não oferece garantias de nada e não é alternativa a coisa nenhuma.»

[CCS, Correio da Manhã]

Sugestões



Descobrir um novo autor é a alegria suprema de qualquer cinéfilo. Aconteceu comigo. Aconteceu com Valerio Zurlini, um gigante do cinema italiano que não me tinha ainda passado pelo radar. Vejam Um Verão Violento (1959), A Rapariga da Mala (1961), Outono Escaldante (1972) e O Deserto dos Tártaros (1976). Nunca o dilema clássico do desejo e do dever conheceu tratamento igual. Meço as palavras.

[JPC]

Sugestões

"Cede de boa vontade a honra que te é feita, de te sentares em primeiro lugar; convidado que és a tomar um lugar de maior distinção, dispensa-a de uma forma afável; se insistirem, por diversas vezes e com convicção, e se a pessoa que te fizer tal pedido desfrutar de alguma autoridade, aceita, mas com modéstia, resistir mais pareceria um sinal de obstinação, e não de educação."
Este, simpático e actual, manual de educação para a juventude foi publicado em 1530, sendo seu autor Desidério Erasmo de Roterdão.

Erasmo de Roterdão (1469-1536) foi, sem dúvida, a personalidade cultural europeia mais importante da sua época não só pela sua actuação em prol da reforma não-violenta dos costumes, religião e mentalidades da Europa, impulsionando-a sair das limitações da Idade Média e introduzindo-a na sabedoria livre e harmoniosa do Renascimento, como, sobretudo, pelos muitos livros que escreveu, traduziu, restabeleceu ou comentou e pela rede de contactos que dinamizou, seja nas suas inúmeras viagens pela Europa seja pela via epistolar, destacando-se entre os seus melhores amigos Thomas More, John Colet, John Fisher, Reuchlin, Budé, Dürer, Aldo Manúcio, Fröben e Damião de Góis.
A sua criatividade pedagógica resistiu à passagem do tempo e obras como o “Elogio da Loucura”, o “Modo de orar a Deus”, os “Adágios” e os “Colóquios”, continuam a ser apreciados, traduzidos e comentados. Algumas citações de Erasmo:
- Por muito que os antigos tenham dito,muito deixaram para ser dito pela posterioridade.
- Defendo a existência do menor número de leis possíveis, que sejam bem conhecidas de todos, e que respondam ao arquétipo da honestidade e da equidade, sem outra intenção que o bem comum poder ser melhor prosseguido. Todas as leis devem dirigir-se sempre à utilidade pública, não segundo a opinião vulgar, mas de acordo com o parâmetro da sabedoria.
- A “filosofia de Cristo” que o próprio Cristo chama um renascimento não é senão a restauração da natureza fundada boa.
- Os que adornam os mosteiros com custo excessivo, quando tantos templos vivos de Cristo estão em perigo de morrerem à fome, tiritam despidos, e são torturados pela falta dos bens necessários, parecem-me culpados de um crime capital.
- Não nego que procuro a paz sempre que possível. Sou a favor de ouvir ambos os lados com ouvidos bem abertos. Amo a liberdade. Não servirei, nem posso servir nenhum partido .

[FTM]

terça-feira, 2 de março de 2010

«A histeria de novo»

As audições promovidas pela Comissão de Ética transformaram-se no que seria de esperar: um espectáculo penoso, recheado de heróis improváveis e de malandros impenitentes que se digladiam entre si, a reboque dos mais diversos interesses partidários.
Para começar, convém dizer que as intenções da Comissão eram, já de si, insondáveis. Discutir, em abstracto, a liberdade de expressão sem especificar os limites do debate nem as condições em que este se exercia permitiu que coubesse lá tudo e mais alguma coisa: das manobras do primeiro-ministro à inverosímil "cabala" atribuída ao Presidente da República, passando, quem sabe, pela "ditadura da maioria" dos idos de Cavaco Silva. Perante a ausência de objectivos determinados, nada garante que a lista das pessoas a ouvir não possa vir a atingir proporções épicas e que, dentro de um ano, ainda estejamos às voltas com os mais diversificados atropelos à liberdade de expressão que se verificaram ao longo da nossa história.
Em segundo lugar, também não é fácil perceber o critério que presidiu à escolha das personalidades convocadas, nomeadamente à dos jornalistas. Pelo que percebi, e posso ter percebido mal, cada partido escolheu os jornalistas que lhe convinha, o PSD as hipotéticas vítimas, o PS os supostos amigos e o Bloco, beneficiando da confusão reinante, os que podiam comprometer o Presidente da República. Esta mistela, como é bom de ver, não augurava nada de particularmente bom. Infelizmente, o que se seguiu ultrapassou as piores expectativas. E se os políticos, para variar, se têm saído mal de todo este imbróglio – basta ver a incompetência da generalidade dos deputados a quem está entregue esta Comissão – não se pode dizer que os jornalistas tenham primado pela elevação.
O que se assistiu nesta primeira semana de audições é apenas um sinal do que nos espera nos próximos tempos: uma série de egos desorbitados, várias acusações fúteis e os previsíveis ajustes de contas de que ninguém sai a ganhar. Eu sei que, neste momento, Mário Crespo é uma das vítimas da liberdade e que nessa qualidade deve, segundo alguns teóricos, ser alvo da solidariedade de todos quantos não estão "vendidos" aos interesses do engº Sócrates. Ora, eu não estou, nem nunca estive "vendida" aos interesses do engº Sócrates, mas considero que a actuação de Mário Crespo na Comissão de Ética foi um exercício deplorável que enxovalha o jornalismo e a Assembleia da República. Um exemplo, como já disse, da histeria que hoje em dia reina em Portugal.»

[CCS, Correio da Manhã]

«A trela invisível»

«Existe uma forma subtil de o poder político premiar ou punir os órgãos de comunicação: através da publicidade institucional. Quando o órgão é manso, recebe o seu biscoito. Quando o órgão ladra e morde, a ração é controlada. Por isso é fundamental saber quanto se gasta e, sobretudo, onde se gasta o dinheiro público: a ‘liberdade de expressão’, hoje, não se faz com comissões prévias de censura. Faz-se com o livro de cheques na mão. A trela é a mesma.
Infelizmente, esta informação simplória foi recusada ao Parlamento e aos portugueses. O Bloco de Esquerda requereu (várias vezes) uma lista com as despesas em publicidade efectuadas em 2008/09 por ministérios, institutos ou empresas do Estado. Meses depois, o governo admite que não sabe, não quer saber e tem raiva a quem sabe. ‘Não há registos’, diz o ministro Lacão, uma resposta que faria sentido em Chicago, nos anos 20, e não num país da União Europeia, em 2010.
Percebe-se: se não há registos, não há abusos; se não há abusos, não há problemas; se não há problemas, tanto barulho para quê?»

[JPC, Correio da Manhã]

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Sugestões


A Pordata é uma notável realização da Fundação Francisco Manuel dos Santos cuja visita se aconselha e que procura "tentar responder às necessidades de informação credível, tantas vezes dispersa e de acesso nem sempre simples por parte de um público o mais amplo possível, independentemente das suas competências em lidar com estatísticas (...) São doze os temas com que se inicia a Pordata: População; Saúde; Educação; Protecção Social; Emprego e Mercado de Trabalho; Empresas e Pessoal; Rendimento e Despesas Familiares; Habitação e Conforto; Justiça; Cultura; Contas Nacionais; Contas do Estado. Cada um destes temas está subdividido em vários subtemas, que incluem múltiplas séries de dados estatísticos. (...) Os dados de base disponibilizados na Pordata são da exclusiva autoria de entidades oficiais com competências de produção de informação nas áreas respectivas"

"No final de Agosto, os italianos negociaram a rendição dos bascos. Conforme acordado, as principais figuras políticas bascas deviam zarpar do porto de Santoña a bordo de dois navios britânicos. No entanto, quando as embarcações deixaram o porto, Franco deu ordens para que navios nacionalistas as bloqueassem, tendo depois exigido que os prisioneiros lhe fossem entregues. Após um impasse de vários dias, os italianos relutantes acabaram por concordar. Os nacionalistas trataram de organizar julgamentos sumários, findos os quais centenas de pessoas foram fuziladas".
"FRANCO" de Michael Streeter: um livro pequeno e bem escrito.

[FTM]

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Música política


O artigo de James Taranto no Wall Street Journal é divertido e enganador.
James Taranto parte de um excerto do mais recente livro de Philip Ball em que este afirma que a música clássica moderna, depois de Schoenberg, é mais difícil para o cérebro em virtude da sua atonalidade. Acrescenta-lhe uma "colherada" de David Huron que entende que a música clássica moderna, por ser imprevisível na sua evolução, frustra os ouvintes, pelos constantes falhanços nas antecipações que fazem, o que os impede de terem o prazer da correcta antecipação .
Deste "mix" conclui James Taranto, que a música clássica moderna não dá prazer ao ouvinte (como se o prazer só pudesse resultar da correcta antecipação) e é uma fraude ...
E, numa enganadora analogia, James Taranto conclui que também o plano de saúde de Obama é uma fraude. Um artigo divertido e enganador.
[FTM]

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Sugestões


Amin Maaalouf é um autor conhecido, seja como romancista ou ensaísta. Este livro é uma obra bem escrita que nos dá uma visão da realidade bastante apurada, nesta época de erosão das democracias e da emergência de um impasse histórico no mundo árabe. As soluções, claro, não existem embora Amin Maalouf procure a redenção na cultura e na construção da solidariedade a nível da humanidade.
Claro que vale a pena percorrer esta história da humanidade guiados por Maalouf.
[FTM]

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Sentido de Oportunidade - II

É verdade.
E, no entanto, era um popular na Madeira que, face à tragédia, comentava: "... havia ali uma ribeira... fizeram-se as estradas..."
Verdade seja dita que não vi as declarações do representante da QUERCUS e, às vezes, a forma como se diz e o que se diz, matam o que se queria/deveria dizer.
[FTM]

Sentido de oportunidade

No meio do caos e da catástrofe, a primeira das prioridades é cuidar dos vivos e ajudar. Um dirigente da Quercus aproveitou para, no meio do caos e da catástrofe, lembrar que a Quercus tinha razão.
[FJV]

Helena









Por motivo de doença, João Pereira Coutinho não participa no programa deste fim-de-semana; em sua substituição junta-se à mesa Helena Matos. Bem-vinda. E rápidas melhoras para o João.

Ética e liberdade e comissão de inquérito. Tudo na Bimby.

É visível, finalmente, que o debate sobre a liberdade de expressão no Parlamento está a seguir o caminho esperado, o da dissolução pura e simples. A liberdade de expressão — reduzida à questão da «liberdade de imprensa» — não é coisa para discutir no parlamento, entre pares com telhados de vidro e departamentos de comunicação & imprensa. Chamar este ou aquele, ouvir considerações, exemplos que dão vontade de rir, proclamações de ética geral, é mais do que metade do caminho para não chegar a lado nenhum. Ora, não chegar a lado nenhum, se não me engano, é coisa que favorece o estado de coisas. Para quem criticou a declaração do primeiro-ministro, bem pode limpar as mãos na parede. Ficámos cientes. Mas, pior do que isso, é transformar epifenómenos políticos em tramóias criminais e juntar tudo na Bimby. Velocidade turbo.

[FJV]

Parabéns a vocês

Quando a oposição avisou que vinha aí uma comissão parlamentar, eu tremi. Quando acrescentou que a comissão parlamentar iria discutir a liberdade de expressão em Portugal, desmaiei. Discutir a liberdade de expressão, de tão absurdo e vago, significa não discutir nada de especial.
No limite, o exercício permite apenas números de pantomina, ajustes de contas e meras exibições de estados de alma, que não tocam no nervo essencial. E o nervo, convém lembrar, é conhecer as predações económicas do Estado nos órgãos de comunicação social, o primeiro passo para condicionar (e, em certos casos, eliminar) a proclamada liberdade de expressão. Por outras palavras: o condicionamento da liberdade de expressão será sempre um fim, e não um meio, de um poder político que não conhece os seus higiénicos limites. Sem separar as águas e definir, com rigor, o objecto da investigação, o resultado não podia ser outro: uma coisa pastosa e nula, que suja mais do que limpa. A oposição está de parabéns e o governo, como sempre, agradece.
[JPC, aqui]

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Mini-leituras

Não sendo muito dado à filosofia, não posso, desta vez, deixar de saudar o texto de José Gil na revista Visão. O título não ajuda: «O não-dito da suspeita», mas a primeira frase arranca bastante bem: «Desenvolve-se actualmente no Ocidente, um processo inexorável de erosão da democracia», e vai por aí fora. Basicamente, do seu lado, fica a conhecer uma visão panorâmica da realidade em que estamos mergulhados, cheia de significado e significados.
No post «Dissolvências» no blog Funes, el Memorioso , cuja leitura igualmente se recomenda, num texto brilhante e e contundente, afirma-se: «Se quisermos voltar a dar às instituições um módico de dignidade e de decoro, ninguém - absolutamente ninguém - pode, no topo da hierarquia do Estado, permanecer onde está. Tem que haver uma varridela geral. E os lugares todos desinfectados com creolina, antes de voltarem a ser ocupados.»
Será, de facto assim? Não será uma questão de erosão e sim de dissolvência?
[FTM]

Uma parábola

No Brasil, o escândalo do mensalão e o processo judicial que se lhe seguiu foi a crise mais séria do governo de Lula. As autoridades tentaram impedir a imprensa de publicar escutas; mesmo assim, não era e não foi necessário (até que foi pedido, judicialmente, que certos jornais fossem impedidos de dar notícias sobre fulano e cicrano — situação que ainda se vive, creio eu, no Estado de São Paulo). O PT, o partido de Lula, além das organizações leninistas que o acompanham (a CUT, o MST, etc.), lançaram os piores ataques contra a imprensa (sobretudo a Veja, a Folha de S. Paulo e o Estadão), com os militantes, irados, queimando jornais e revistas na rua. Nada feito. A imprensa tinha feito o trabalho de casa e é justo dizer que nenhum jornal português lhes chega aos calcanhares. A cada mentira dos dirigentes do PT, apareciam fotos e documentos que os desmentiam. Lula nunca foi atingido; Lula não sabia de nada, Lula era inatacável. O tesoureiro do PT foi demitido e cassados os seus direitos políticos. José Dirceu, cujo gabinete ficava ao lado do de Lula, foi demitido e cassados os seus direitos políticos. Lula não sabia de nada e falava de uma campanha contra o filho eleito do povo. José Genoíno, presidente do PT, foi demitido. Lula era inocente, apesar das dúvidas da imprensa e de manifestamente ser impossível que não soubesse de nada, se os personagens pertenciam ao núcleo duro do seu governo, se se encontrava com eles todos os dias, se lhes telefonava a qualquer hora do dia e da noite, se trabalhavam ao seu lado. Lula nunca soube de nada. O povo tinha mais com que se preocupar. Às vezes, o povo pode querer que as coisas sejam assim mesmo.
[FJV]

Na sondagem

José Sócrates, como diz parte da oposição, tem condições para continuar a exercer o cargo de primeiro-ministro?
  • Sim > 17%
  • Não > 61%
  • Deve submeter uma moção de confiança na AR > 14%
  • A questão não se coloca > 5%
Pode votar na coluna da direita.

Um cheque em branco

Com a autoridade política desfeita em cacos, o primeiro-ministro mandou chamar o partido. Para quê? Para conseguir ‘unidade’, ou seja, uma espécie de polícia de choque que o proteja das negras trapalhadas da vida. Um líder, por definição, lidera. Mas Sócrates já não lidera o seu rebanho; esconde-se atrás dele, o que não deixa de ser uma confrangedora exibição de tibieza e fragilidade.
E o rebanho? O rebanho parece disposto a caminhar para o matadouro, ignorando por completo esse fantasma tremendo que se chama ‘dia de amanhã’. Porque existem ‘dias de amanhã’ que o PS, logicamente, desconhece. Que fará o PS, este PS comprometido e arregimentado, se a imprensa continuar a retirar da cartola coelhos que mais parecem ratazanas? Que fará o PS, este PS silencioso e timorato, quando a degradação política, já alarmante, atingir níveis insuportáveis? Fingir que não tem nada a ver com nada?O PS não se prepara para apoiar Sócrates. Prepara-se, coisa pior, para lhe passar um cheque em branco sem exigir fiador. É o princípio da falência partidária.
[JPC, aqui]

Vida privada, vida íntima

Do leitor Luís Barata:
«Há uma distinção importante que não tem sido feita em toda esta temática e que é importante: "Vida privada" não é "Vida íntima"- são esferas diferentes. E há elementos da "vida privada" dos governantes, designadamente os amigos que têm e os "esquemas" de que vão tendo conhecimento, que não são despicientes para a avaliação política.
Por outro lado, não deve ser o "segredo de justiça" visto como uma vaca sagrada que importa proteger a qualquer custo. É um segredo que deve ceder perante valores mais altos, como em qualquer caso de colisão de direitos.
E o que temos visto é que o segredo de justiça está a ser usado como um escudo protector perante revelações politicamente catastróficas...»

O debate

Com o devido respeito, nem todas as questões políticas estão sujeitas a escrutínio parlamentar e a comissões de inquérito (nascidas de maiorias flutuantes) já suficientemente desacreditadas. A ideia de discutir a ‘liberdade de expressão’ no parlamento é uma pequena vingança que pode sair furada ou afogar-se no meio do ruído e da guerra governo-oposição. Os portugueses, infelizmente, não são muito sensíveis às questões de liberdade de imprensa nem de direitos cívicos; conformam-se. Há demasiados jornais proibidos, perseguidos e odiados na nossa história. O poder aproveita essa tradição iliberal portuguesa e reduz o problema a inveja, maledicência e conspiração; a oposição, que tem telhados de vidro, nem sempre escolhe bem o terreno onde pisa. O debate devia ser cá fora.
[FJV, aqui]

Leituras

«José Sócrates tem de decidir se quer deixar de ser primeiro-ministro antes ou depois das Presidenciais. À sua direita tudo se prepara para o derrubar depois da reeleição de Cavaco Silva. As primárias do PSD apontam nesse sentido. À esquerda a sua simples manutenção no cargo de chefe do governo impede praticamente a vitória de qualquer candidato presidencial deste quadrante, desde Manuel Alegre a Fernando Nobre, ou qualquer outro que entretanto apareça. A lógica do combate político levaria a que fosse o próprio Sócrates o candidato presidencial do PS governamental, tantos e tão públicos foram os desentendimentos entre São Bento e Belém.»
José Medeiros Ferreira

«A questão é política e deve ser tratada como tal. Não faz por isso sentido o argumento formalista, que manda aguardar pela reunião da assembleia-geral da empresa. Uma coisa é clara: quanto mais tempo demorar o silêncio do primeiro-ministro sobre o tema, pior. O ónus da explicação está do seu lado e Sócrates tem demorado demasiado tempo a responder.»
Pedro Adão e Silva

«O primeiro-ministro não vai deitar a toalha ao chão mesmo que seja expulso de São Bento com alcatrão e penas. A resiliência é o seu traço de carácter mais interessante, o único em que alcançou grandeza. Não o veremos lamentar, como Guterres, a pátria que não o merece. Sócrates não será embaixador na ONU, alto-comissário para os pobrezinhos, nem eminência parda do auxílio à Serra Leoa. Pelo contrário, vai atazanar o país nos próximos dez anos, ainda que o país não o queira e o abomine. A sua sombra vagueará pelo PS como o espírito mau da defunta Rebecca em Manderley.»
Luís M. Jorge

O ponto da situação.

Depois de ler esta peça, é evidente que o país entrará em espiral, em ritmo lento, consumindo-se devagar entre eleições para o PSD (um fenómeno), vida interna do PS (outro), eleições presidenciais e o campeonato de futebol. Isto não é ligeireza nem desinteresse. Evidentemente que estou de acordo com o Luís M. Jorge: não eram precisas «as escutas» para ver o óbvio. O óbvio é o óbvio — vem todos os dias nos jornais e basta fazer uma leitura da propaganda dos últimos três anos para o perceber. Não é preciso invocar conspirações extraordinárias; o puzzle está ao alcance de qualquer um e até do embaraço dos apaniguados. O argumento de que o país votou assim e que não se pode fazer nada contra isso não me comove extraordinariamente. Transformá-lo em república de juristas, debulhando o segredo de justiça (que flutua bastante, basta lembrar), discutindo pequenas censuras, e as conveniências de advogados e defensores da ordem, é o pior que nos pode acontecer. O problema do país não é jurídico nem legal — é político. Não é preciso ler o Sol nem as decepcionantes defesas oficiosas do regime, e do centrão, para o perceber. Desde há três anos que o problema é mais vasto. É a indiferença do país (tanto em relação ao endividamento externo de 177 mil milhões, como à propaganda e à mistificação, como a questões elementares de direitos e liberdades); a impunidade do poder e do Estado; o carácter manhoso da corte que Sócrates espalhou por uma rede influente e distribuída pelo Estado e pelas corporações; a rede de interesses e compromissos que junta negócios, influência na imprensa e decisão política; um PSD pouco empenhado e, sobretudo, pouco hábil que espera que Sócrates caia de maduro. A gritaria não vai poupar ninguém.
[FJV]

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Raciocínios não jurídicos


Numa sociedade democrática, as escutas telefónicas não só são monopólio do Estado, como são um monopólio extremamente regulado. No nosso país, por exemplo, vigora um princípio geral constitucional de proibição de ingerência das autoridades públicas nas telecomunicações, salvo os casos previstos em leis respeitantes à investigação criminal.

E na investigação criminal, as escutas telefónicas só são autorizadas quando se investigam crimes puníveis com penas superiores a três anos de prisão e, não sendo um meio de prova proibido, deverão sempre ser consideradas um meio de prova excepcional. Em rigor, deveriam ser um último recurso da investigação, quando não fosse mesmo possível recolher prova de outra forma e houvessem sérios indícios de que a intercepção iria produzir frutos.

As escutas telefónicas desnudam-nos. E só nos devemos desnudar voluntariamente. Ponto final.

Infelizmente, no nosso país, como é frequentemente referido em público, tem havido um recurso cada vez maior e mais facilitado às escutas telefónicas, usando-se este método de investigação criminal mais como uma rede de pesca do que como um arpão. Com o risco de se adoptar o princípio de que tudo o que vem à rede é peixe ...

E daí que sejam lógicas e susceptíveis de serem subscritas por qualquer pessoa de boa fé, posições de princípio tais como as que se cristalizam na afirmação de que “as escutas ou têm relevância criminal (foi para isso que elas foram autorizadas) ou não têm qualquer relevância”.

E, não há dúvida, de que o poder judicial, a quem são confiadas as escutas telefónicas, tem um particular dever de respeitar e guardar a confidencialidade e o sigilo das escutas efectuadas, como tem o dever de assegurar o segredo de justiça.

Suponha-se, agora, que não o faz. Que as escutas telefónicas ou peças processuais em segredo de justiça são transportadas para fora dos espaços onde são supostas estar. Suponha-se, ainda que essas escutas revelam conversas que, não sendo criminais, são graves. Graves e relevantes politicamente, socialmente, humanamente. Tendo em conta as pessoas envolvidas, os temas discutidos ou as acções realizadas. O que fazer com tal informação?

O problema do acesso à informação coloca-se, hoje em dia, com particular acuidade nas sociedades democráticas já que, não obstante o acesso estar muito facilitado e generalizado, a complexidade do sistema do poder politico e económico permite a utilização de “cortinas de fumo”, biombos e outros artifícios que impedem o cidadão comum de saber minimamente o que se está a passar ou o que se passou.

Para além daquilo a que infelizmente podemos chamar o “folclore democrático”, que facilmente chega a todos, sob as mais variadas formas e feitios, há um vastíssimo número de negócios e negociatas, arranjos e arranjinhos, vergonhas e pouca-vergonhas que escapam a todos nós, contribuintes, eleitores e cidadãos. E, são, muitas vezes, estas realidades ocultas que determinam mil e um acontecimentos relevantes para a nossa existência. Pode dizer-se, e certamente com razão, que o exercício do poder politico e económico sempre terá sido assim. Sempre terão havido “manobras de bastidor” e “jogos de sombra”, sendo que ao “pagode” basta dar o pão e o circo.

Mas a democracia tem este “pequeno” problema: todos somos legitimamente interessados no exercício do poder pelos eleitos. Fomos nós que os colocámos lá. Ou que não conseguimos evitar que lá fossem colocados. Aquilo que eles fazem, salvo naturalmente o que respeita à sua vida privada, diz-nos directamente respeito.

Mas voltando às escutas. Suponha-se que estas carregam em si o pecado original: constituem uma violação da privacidade, realizadas com o fim de revelar a prática de crimes, mas foram desviadas desse fim, revelando-nos uma realidade bem diferente da que nos foi apresentada pelo poder? E não falamos das corriqueiras mentiras dos políticos e do poder, das promessas não cumpridas, dos pequenos fretes e favores, do triste e vulgar mercado de consciências. Falamos de conversas que indiciam manipulações de larga escala, recorrendo a meios e a dinheiros públicos, com vista a perpetuar o poder dos políticos que se sentam nas cadeiras do dito cujo.

Nada que se aproxime do crime de atentado contra o Estado de Direito praticado por titulares de cargos políticos, figura criminal, aliás, de absoluta inutilidade pela vagueza dos conceitos que utiliza. Mas que indiciam um ambiente malsão, mostrando que nos corredores do poder circula gente a quem não convidaríamos para jantar em nossa casa, apesar de terem dinheiro para jantar diariamente nos melhores restaurantes.

Seria tal informação publicável? A questão pode ( e deve) pôr-se em termos individuais e não jurídicos: se qualquer um de nós recebesse um CD com gravações de conversas chocantes, não sobre a vida íntima da vizinha, mas sobre comportamentos e actuações duvidosos daqueles que elegemos e nos governam, ou daqueles que, não tendo sido eleitos, ocupam cargos dominantes na sociedade, destruiria o CD ou procuraria divulgar o que se passava nas nossas costas?

Mesmo sabendo que corria o risco de ser responsabilizado criminalmente por divulgar aquilo que a lei, abstractamente, proíbe, o que lhe imporia a sua consciência?

É certo que o interesse público não se confunde com um qualquer interesse do público, mas não é menos certo que são as leis que servem as sociedades e não as sociedades que servem as leis. Ou quem as faz (Público de 13/02/10).

[FTM]

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Não aprender grande coisa

Um grupo generoso e ambidextro de apoiantes do primeiro-ministro prepara uma manifestação de desagravo ao líder, e que constitua “um aviso para a comunicação social”. Salvo erro, quem corre atrás “da comunicação social” acaba a levar pedradas. A lição não é de hoje nem de ontem. Até porque, como se sabe, o governo e as redações do jornais devem produzir coisas diferentes. O ideal é que “a comunicação social” do governo, e integralmente paga por ele, com o nosso dinheiro, se reduza ao circunspecto Diário da República. O desagravo tem toda a legitimidade; já “o aviso” é totalmente despropositado – limita-se a ser uma ameaça vulgar e malcriada, armada até aos dentes com a invocação do nome do líder. Coisas destas já aconteceram e as consequências foram risíveis.
[FJV]

Sondagem

Nova sondagem na coluna da direita.

Tauromaquia

O ataque mais frontal ao governo é o de Henrique Granadeiro; qualquer análise textual que explorasse a declaração do chairman da PT até às últimas consequências deitaria por terra a tese do «não é nada, é tudo invenção».
[FJV]