domingo, 24 de outubro de 2010

Sugestões



Manuela Gonzaga conta-nos uma história verídica do princípio do século XX português que nos educa e instrói: a paixão da filha do fundador do "Diário de Notícias" e mulher do administrador pelo seu motorista. Acusada de louca pelo marido, viu eminentes médicos como Júlio de Matos, Egas Moniz e Sobral Cid emitirem pareceres no sentido da sua loucura e da necessidade do seu internamento com base em doenças como a menopausa e a ovarite. Maria Adelaide esteve internada em hospitais psiquiátricos durante anos, de onde conseguiu fugir, lutando por se defender do poder masculino, económico e científico da época, numa odisseia dolorosa que vale a pena conhecer. Uma leitura para qualquer hora do dia.


O site wikileaks.org é um dos heróis do ciberespaço, trazendo-nos informação impensável sobre diversos temas. Mais conhecido pela divulgação de numerosos documentos oficiais norte-americanos sobre a guerra no Afeganistão, há alguns meses, traz-nos agora centenas de milhares de documentos sobre a guerra do Iraque, uma guerra de uma violência inaudita que destruiu (e continua a destruir) incontáveis vidas e famílias mas que cumpriu o seu único objectivo: assegurar o fornecimento do petróleo ao Império. [FTM]

sábado, 23 de outubro de 2010

Sugestões - I

Apesar de a República caminhar para o seu fim, digo, as comemorações do centenário da 1.ª República caminharem para o seu fim, ainda vale a pena ler alguns dos inúmeros livros publicados sobre esse período, nem glorioso nem vergonhoso, da nossa história recente.
António José Telo, neste excelente livro, chama-lhe, numa expressão divertida, um "regime bizarro e cheio de paradoxos". Também eu, tal como o autor, tinha (e tenho) um fascínio pela 1.ª República, pelo facto de ser um regime "democrático" por oposição à "ditadura" do Estado Novo. E, embora as inúmeras versões revisionistas da nossa História nos levem a reconsiderar os conceitos de "democracia" e de "ditadura" quando aplicados a estes períodos, nem por isso a 1.ª República passou a ser uma ditadura, nem o Estado Novo uma democracia. Parece-me, claro ...
[FTM]

Sugestões - II


José Luis Saldanha Sanches era uma pessoa séria e de qualidade e o seu último trabalho, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e escrito já na cama n.º 56 do hospital, é, igualmente, sério e de qualidade.
Definindo conceitos essenciais sobre a fiscalidade e a história da justiça fiscal, Saldanha Sanches explica-nos algumas coisas importantes tais como que "entre as condições hoje consideradas necessárias para o crescimento económico podemos considerar itens como programas eficientes para reduzir a pobreza, criação de redes de segurança social eficazes ou normas estruturais que combatam com sucesso a corrupção e (mesmo antes da crise de 2008) uma boa regulação dos mercados financeiros."
Nestes tempos de toque a finados do Estado Social em que os infractores saiem beneficiados, convém ter presentes estas verdades...
[FTM]

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Sugestões



Alberto Gonçalves escreve no Diário de Notícias e na revista Sábado onde, semana após semana, contribui para os serviços de cardiologia do Sistema Nacional de Saúde. Sem motivo: estivesse o país habituado à crítica irónica, independente e inteligente e as válvulas continuavam a bombar com normalidade e riso. O seu último livro é Ninguém Diga Que Está Bem. Mas eu digo: o livro está muito bem. [JPC]

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Engenharia













Todos nós entendemos de engenharia financeira. Trata-se, em resumo, de obter financiamento e de garantir receitas com alguma antecipação. Uma vasta geração de optimistas tomou conta do poder com a ideia de que a engenharia financeira era desculpável e alienável, esquecendo coisas como dívida pública, dívida externa e dívida das famílias. A maior parte dos teóricos da «engenharia financeira do Estado», como da «engenharia social», pode ser bem intencionada. As boas intenções são sempre lamentáveis porque acumulam desculpas sobre desculpas, e tratam os cépticos como «economicistas» ou «conservadores» diante do grande magistério de ousadia que representam as suas políticas de alto endividamento. Basicamente, toda a gente percebe que se gastou mais do que se devia. A única engenharia possível é a que garanta condições de financiamento da economia, coisa que não se consegue enquanto não se alterarem os comportamentos do Estado e das pessoas. Chama-se a isso temperança. Uma coisa muito conservadora.
[FJV]

Empresas amigas

Um dos flagelos do regime é a existência de empresas amigas. Estão no Orçamento de Estado — pagamos muitas das parcerias, desembolsamos muitos dos apoios às empresas amigas do Estado, que, em Portugal, se confunde muito com o governo. Por isso acho estranho que Pedro Passos Coelho peça, como uma condição essencial, que o Estado «apoie as empresas». O único apoio que as empresas devem ter do Estado é permitir que as deixem trabalhar. Aos cidadãos, que se lhes permita viver. O Estado que se meta na sua vida, que faça as suas contas, que nos deixe em paz.
[FJV]

Voltámos




















Depois da primeira emissão da nova série de A Torto e a Direito (que contou com a presença de Miguel Portas, eurodeputado do Bloco de Esquerda, como convidado), a equipa-base (faltou a Rita Severino, excelente produtora do programa) reuniu — para jantar. Foi no Mãe d’Água/La Cocina de Angel, no Jardim das Amoreiras, em Lisboa, que nos encontrámos para, imagine-se, discutir as próximas eleições e aprovar o orçamento, tudo ao mesmo tempo. Algumas imagens dão conta do grande sentido de responsabilidade (coisa muito pedida, ultimamente) da equipa.
[FJV]

Sugestões de sábado passado











Roger Scruton, The Uses of Pessimism (Atlantic Books): em tempos de crise, um dos grandes filósofos contemporâneos aborda questões contemporâneas alertando para os riscos do optimismo – como uma dependência do sistema político actual.











Não concordando com muitas das posições de Margarida Santos Lopes (jornalista do Público) quando se trata do Médio Oriente, não tenho dúvidas em afirmar que o seu Dicionário é um elemento fundamental de trabalho e o testemunho de um espírito que busca esclarecimento e que se dedica ao tema com grande honestidade.
[FJV]

Dois posts a reter.

«Estes são os melhores anos de Portugal. Não temos ilusões e está tudo por fazer. Nada esperamos da Europa, das obras públicas ou da canalha que nos prometeu o céu.»
Luís M. Jorge, no Vida Breve

«Somos todos iguais – eis o que se descobre nos autocarros – um igualitarismo rodoviário, co-financiado pelo Estado, não vale a pena simular enjoos perante o que se ouve, a pornografia da alma é uma grande conquista das nossas sociedades, todos nus e de mãos dadas num reality-show ininterrupto.»
Bruno Vieira do Amaral, no A Douta Ignorância
[FJV]

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Estado Social

Esta é uma interessante questão: saber exactamente quando o primeiro-ministro descobriu a existência do Estado Social. Esta manhã, leio no Diário Económico as declarações de José Sócrates: este orçamento «protege o emprego e protege o modelo social». Não podia ser mais delirante. A questão não é nova e tem a ver com a interessante definição de «esquerda» praticada pelo primeiro-ministro – várias vezes, ao longo da sua primeira legislatura, e temendo que os deuses do socialismo se voltassem contra ele, José Sócrates apareceu em público defendendo que as suas medidas eram «de esquerda». Passaram a ser «de esquerda» o código de trabalho, o computador Magalhães, o défice, o casamento de pessoas do mesmo sexo, a regionalização, o Instituto do Azeite, o Observatório das Aves, tudo o que o governo decidisse ser «de esquerda». Era «de esquerda» aquilo que o o primeiro-ministro entendia ser «de esquerda». Com o Estado Social passa-se exactamente a mesma coisa: o primeiro-ministro, pra ser «de esquerda», elegeu a defesa do Estado Social como uma das suas prioridades; é uma questão de princípio. Se toma medidas contrárias ao Estado Social, isso não tem qualquer relevância – trata-se de defender o Estado Social, mesmo se estas medidas contrariam as anteriores, tomadas em defesa e promoção do Estado Social. Trata-se de defender uma linguagem, esperando que ela substitua a realidade propriamente dita.
[FJV]

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Sugestões


A análise do discurso e dos discursos de Oliveira Salazar na dissertação do mestrado de José Martinho Gaspar. Convém não esquecer:
«Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e a sua História; não discutimos a autoridade e o seu prestígio; não discutimos a família e a sua moral; não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.»
Era um tempo de certezas...
[FTM]

sábado, 8 de maio de 2010

Sugestões II


Se gosta de História e de pequenas histórias de pessoas reais, vai gostar deste livro de José Pedro Castanheira que, após uma exaustiva investigação, nos relata o que foi a vida de Ayres Azevedo, um «cientista português no coração da Alemanha nazi» dedicado a investigar «ciências raciais», «higiene racial e demográfica» e «anormalidade em cruzamentos raciais»
Regressado a Portugal, curiosamente, foi maltratado pela Academia...
[FTM]

Sugestões I

O MES foi um movimento político que nasceu, se desenvolveu e morreu entre 1970 e 1981. Situado, em termos tradicionais, na extrema esquerda não marxista-leninista, nele militaram personalidades tão variadas quanto Jorge Sampaio, Nuno Teotónio Pereira, José Galamba de Oliveira e Ferro Rodrigues. E um mestre que nos abandonou demasiado cedo: Victor Wengorovius.
Este livro relata-nos essa "improvável aventura" através da pena de dois dos seus recomendáveis militantes: Paulo Bárcia e António Silva.
A ler, especialmente se viveu com interesse e intensidade, o pós-25 de Abril de 1974.
[FTM]

Acção directa

O deputado Ricardo Rodrigues ao apossar-se do gravador dos jornalistas da revista Sábado por não estar a gostar da entrevista dá, pelo menos, a noção da desorientação em que estava. Ao intentar uma providência cautelar e ao entregar o gravador a um "fiel depositário", como foi dito, está a "fugir para a frente" e a contribuir para a judicialização da política.
Embora este episódio possa não ser mais do que um "fait divers" é, seguramente, um lamentável "fait divers"...
[FTM]

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Sugestões

A tese de doutoramento do Pe. João Seabra, que é também licenciado em Direito, passa a ser um livro essencial para quem se interessa pela 1.ª República e pelo anticlericalismo.
Confesso que ainda só o folheei mas sei, pelo menos, duas coisas:
1. É um livro bem escrito, cheio de informação útil e que toma partido;
2. Irei discordar de muitos dos seus pressupostos, opiniões e conclusões.
Recomendo, pois, sem quaisquer dúvidas, a sua leitura .
[FTM]

Sugestões


Churchill dizia que era o pior regime, com a excepção de todos os outros. John Keane, em Vida e Morte da Democracia (Edições 70), concorda, traçando uma história da democracia desde os Gregos até hoje. Deixa avisos. Os mesmos que Tocqueville deixou há quase dois séculos: nenhuma democracia sobrevive sem vigilância permanente. Uma lembrança apropriada, sobretudo com evidências destas.
[JPC]

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Lá como cá...

Sarkozy anuncia que quer que deixem de ser pagas as prestações sociais aos pais que não garantam a assiduidade escolar escolar dos filhos.
O problema, parece, é que a medida já está prevista na lei, com um pequeno interregno, há mais de 50 anos mas não é eficaz, nem útil nem justa, correndo-se o risco de, na situação de crise económica em que vivemos, empurrar para maior miséria ... alguns miseráveis.
Basta pensar que as razões para o absentismo podem ser diversas para se vislumbrar as injustiças possíveis. E não será o corte das prestações sociais que irá ressuscitar a autoridade na família. Se quiser saber um pouco mais sobre o assunto, aconselho uma visita ao Libération.
[FTM]

Sugestões


Inspirados pela nova-iorquina The New Criterion (pessoalmente, a melhor revista highbrow do mundo), jovens intelectuais paulistanos ergueram a Dicta & Contradicta. Para aperitivo, a malta tem um blogue.
[JPC]

«Intolerâncias»

Como seria de esperar, a visita do Papa a Portugal já deu origem a uma pequena e comovente polémica sobre a tolerância de ponto decretada pelo Governo. Os fanáticos do costume decretaram que pretendiam trabalhar nesses três dias a bem da separação do Estado e da Igreja e – pasme-se – em prol da produtividade nacional que, na sua douta opinião, não pode ser abalada pela visita de um "líder religioso qualquer" que decida deslocar-se ao nosso país. Até a CIP e as centrais sindicais, esses pilares da nossa economia, se pronunciaram patrioticamente contra a decisão tomada pelo Governo, alertando para a crise em que vivemos e para a necessidade dos funcionários públicos contribuírem, com o seu trabalho, para o aumento da produtividade e para o desenvolvimento da pátria.
É evidente que este reconhecimento súbito do estado em que nos encontramos não deixa de ser salutar, sendo de esperar, nomeadamente por parte dos sindicatos, exemplos futuros de responsabilidade e compreensão pela situação em que se encontram as finanças públicas e a economia portuguesa. Custa-me a crer que sindicalistas, tão atentos aos custos da visita do Papa, se entretenham depois a promover greves que, para além de não levarem em linha de conta a crise em que nos encontramos, não contribuem certamente para o dito aumento da produtividade. Tudo isto seria um pouco ridículo – e é – se por trás destes nobres objectivos não se escondesse o velho preconceito contra a Igreja e o zelo anticlerical de meia dúzia de figuras públicas, sempre em busca de crucifixos nas escolas e de outros sinais religiosos no espaço público. Ao contrário do que tem sido dito, o que está em causa não é a neutralidade do Estado em relação às diversas religiões, mas a incapacidade de perceber que, num país de tradição católica, o Papa não é um "líder religioso qualquer", como tem sido amplamente referido.
Pretender equipar a visita de Bento XVI à visita de qualquer outro líder religioso (hindu ou muçulmano, como já vi defender) é não compreender a realidade portuguesa e desconhecer totalmente a sua história. Há uma ligação entre o País (e o ocidente, em geral) e a Igreja que um Estado laico deve saber reconhecer. Um Estado laico não é sinónimo de um Estado anti-religioso, incapaz de compreender a dimensão pública da fé. E a crer nalgumas coisas que por aí têm sido escritas, dá ideia de que o Papa, não lhe sendo retirado o direito de viajar pelo mundo, devia ter, pelo menos, a decência de o fazer clandestinamente. De forma a não importunar ninguém. Porque o problema é que este Papa, em particular, importuna.

[CCS, Correio da Manhã]

Sugestões


Uma leitura emocionante através de uma viagem pelo interior da vida de um ditador e de uma ditadura sul-americana. Ingenuidade, perversão, maldade, raiva e ódio entre outros ingredientes. O livro já tem uns anos mas, se não o leu, pode agora comprá-lo por 7,50 euros. Não se arrependerá.
[FTM]