domingo, 31 de outubro de 2010

Sugestões. Uma memória de fim de século.


Acabo de ler a biografia de Francisco Sá Carneiro, de Miguel Pinheiro (Esfera dos Livros, 768 págs.). Na história dos partidos não-comunistas do pós-25 de Abril, Sá Carneiro foi o único dirigente capaz de criar um partido a partir do nada. Há duas leituras essenciais da sua figura — uma, largamente maioritária, privilegia o homem que quis acelerar o fim do regime revolucionário (com um projecto de revisão constitucional anti-socialista logo em 1978, a luta contra o eanismo e o papel do Conselho da Revolução, o confronto directo com a esquerda e com a imposição dos herdeiros da I República, de que Mário Soares era a figura principal); outra, absolutamente minoritária (e de que Miguel Real é um excelente intérprete), que o vê como um personagem trágico esmagado pelo provincianismo português, de esquerda e de direita.

O livro de Miguel Pinheiro acompanha a biografia política de Sá Carneiro dia a dia, semana a semana: o desenho desse personagem é cada vez mais nítido à medida que se aproxima da morte, cercado de conspirações (grande parte delas só existia na sua cabeça, o que não quer dizer que não fossem reais), de traidores, de submarinos, mas — sobretudo — de vencidos. Ele foi o primeiro político do mainstream a perceber as vantagens do radicalismo, a não contemporizar com as terceiras vias da época, a não ter pudor em fazer da política um jogo, a afrontar os lugares-comuns da via original para o socialismo (e a não sentir esse apelo romântico) e a nomear claramente os seus adversários. Num último golpe, tentou ainda uma aproximação com Mário Soares; Soares sempre esteve aberto a essa grande coligação que tomasse o poder, desde que garantisse o seu lugar à frente da História, mas Sá Carneiro percebera como ninguém que, mesmo nos meses de fogo e chumbo de 1975, primeiro, e 1976, depois, esse projecto seria a morte do PSD, um partido que nascera como herdeiro dos liberais do marcelismo, e que, na sua matriz, era europeu, conservador à maneira inglesa (o que era difícil num pais sem grande gosto pela liberdade e com um ódio radical contra «as elites»), anti-comunista — e cuja base eleitoral era essencialmente populista. Acontece que não podia ser de outra maneira. Foi durante o curto consulado de Sousa Franco à frente do PSD que nasceu a teoria das duas matrizes do partido: ele, Sousa Franco, era o representante do PSD «urbano», «socializante», de «esquerda»; Sá Carneiro tinha o apoio das «massas rurais» sobretudo do Norte e do interior, era «anti-socialista» e não compreendia as vantagens da contemporização. A definição era tão estreita que o próprio Sá Carneiro ficou surpreendido com os riscos que corria e com a natureza do seu «radicalismo» — que os dissidentes de Aveiro, comandados por Sá Borges e pelos herdeiros de Emídio Guerreiro, e os mentores das «Opções Inadiáveis», mais tarde, definiam como caudilhismo e prepotência. Entre esses críticos estavam Sá Borges e Emídio Guerreiro, é certo, mas também Artur Santos Silva ou Magalhães Mota, Mota Pinto ou Sérvulo Correia, e todos os que entendiam que era necessário ser maleável e contemporizador, mas não tinham entendido suficientemente que ou ficavam presos à estratégia de Mário Soares e Eanes para o novo regime (Soares criou Eanes como candidato fraco à presidência na esperança de o substituir mais tarde ou mais cedo — mas nunca teve ilusões sobre o seu moralismo militar e, no fundo, detestava a figura do general), ou afrontavam o PREC e os seus herdeiros. Quando Sá Carneiro tenta a última aproximação com Soares (ele seria primeiro-ministro e Soares o primeiro presidente civil — o que significaria a antecipação do fim do papel político dos militares), Soares não avaliou correctamente a situação (como não avaliaria mais tarde, na sua candidatura contra Freitas) e tomou os seus desejos por realidade, como de costume, confiando na ideia de que a sua genialidade lhe bastava. Enganou-se: daí a poucos meses, o PS ficaria reduzido a 27% e Sá Carneiro conquistaria a primeira maioria absoluta de direita com a AD. É dessa época, aliás, que datam alguns dos episódios mais edificantes do moralismo de esquerda, com críticas do próprio Soares à «relação extra-conjugal» de Sá Carneiro com Snu Abecassis, um assunto que o PS levaria inclusive para o parlamento e que Eanes explorou no seu confronto posterior com o primeiro-ministro que foi obrigado a nomear. Sá Carneiro alimentou sonhos demasiado altos — desde o de um país libertado do provincianismo até à ideia de ser presidente da República (os ataques baixos a Snu foram definitivos na decisão de abandonar o projecto presidencial). Viu, antes de outros (a geração do Semanário, por exemplo, que acabou por assumir uma parte da sua herança civilista e anti-socialista), o que seria esse país dirigido por militares, contemporizador, servil, pequenino. As suas características bipolares não poderiam ajudá-lo; as suas sucessivas depressões foram dolorosas; a história do seu casamento é a de «Um Adeus Português» ao contrário (ele teve a sorte que não teve O'Neill, mas também a coragem que O'Neill não poderia ter na época), e que Agustina Bessa-Luís retrata em Os Meninos de Ouro com a habitual e justa crueldade. A morte prematura faz dele um herói literário que Miguel Real analisa (em O Último Minuto na Vida de S.) e acaba para transferir para Snu Abecassis, transformando «o último grande amor português» num combate contra o país arcaico, mau, mesquinho, moralista, conspirador, falsamente republicano, oligárquico e herdeiro da Inquisição. Temos poucas biografias entre nós; a de Miguel Pinheiro é um retrato em pano cru de um dos últimos cometas trágicos da nossa política; o que lhe falta em interpretação sobra-lhe em petite histoire deliciosa, em registo factual, em documentação reunida e em entrevistas com actores da época (só isso justifica a abundância de reconstituição de diálogos). O desenho que se vai formando é o de um homem contraditório que prepara, sem o saber, a sua própria biografia como um dos primeiros desiludidos com a revolução e com a fé.

[FJV]

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sugestões



Martin Gilbert, biógrafo oficial de Winston Churchill, tem novo livro na praça: uma monumental História do Século XX (Dom Quixote). Para ler nos intervalos da odisseia, a poesia de Ferreira Gullar (Em Alguma Parte Alguma, Ulisseia), Prémio Camões em 2010 e que concedeu esta entrevista supimpa ao Público.
[JPC]

domingo, 24 de outubro de 2010

Sugestões



Manuela Gonzaga conta-nos uma história verídica do princípio do século XX português que nos educa e instrói: a paixão da filha do fundador do "Diário de Notícias" e mulher do administrador pelo seu motorista. Acusada de louca pelo marido, viu eminentes médicos como Júlio de Matos, Egas Moniz e Sobral Cid emitirem pareceres no sentido da sua loucura e da necessidade do seu internamento com base em doenças como a menopausa e a ovarite. Maria Adelaide esteve internada em hospitais psiquiátricos durante anos, de onde conseguiu fugir, lutando por se defender do poder masculino, económico e científico da época, numa odisseia dolorosa que vale a pena conhecer. Uma leitura para qualquer hora do dia.


O site wikileaks.org é um dos heróis do ciberespaço, trazendo-nos informação impensável sobre diversos temas. Mais conhecido pela divulgação de numerosos documentos oficiais norte-americanos sobre a guerra no Afeganistão, há alguns meses, traz-nos agora centenas de milhares de documentos sobre a guerra do Iraque, uma guerra de uma violência inaudita que destruiu (e continua a destruir) incontáveis vidas e famílias mas que cumpriu o seu único objectivo: assegurar o fornecimento do petróleo ao Império. [FTM]

sábado, 23 de outubro de 2010

Sugestões - I

Apesar de a República caminhar para o seu fim, digo, as comemorações do centenário da 1.ª República caminharem para o seu fim, ainda vale a pena ler alguns dos inúmeros livros publicados sobre esse período, nem glorioso nem vergonhoso, da nossa história recente.
António José Telo, neste excelente livro, chama-lhe, numa expressão divertida, um "regime bizarro e cheio de paradoxos". Também eu, tal como o autor, tinha (e tenho) um fascínio pela 1.ª República, pelo facto de ser um regime "democrático" por oposição à "ditadura" do Estado Novo. E, embora as inúmeras versões revisionistas da nossa História nos levem a reconsiderar os conceitos de "democracia" e de "ditadura" quando aplicados a estes períodos, nem por isso a 1.ª República passou a ser uma ditadura, nem o Estado Novo uma democracia. Parece-me, claro ...
[FTM]

Sugestões - II


José Luis Saldanha Sanches era uma pessoa séria e de qualidade e o seu último trabalho, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e escrito já na cama n.º 56 do hospital, é, igualmente, sério e de qualidade.
Definindo conceitos essenciais sobre a fiscalidade e a história da justiça fiscal, Saldanha Sanches explica-nos algumas coisas importantes tais como que "entre as condições hoje consideradas necessárias para o crescimento económico podemos considerar itens como programas eficientes para reduzir a pobreza, criação de redes de segurança social eficazes ou normas estruturais que combatam com sucesso a corrupção e (mesmo antes da crise de 2008) uma boa regulação dos mercados financeiros."
Nestes tempos de toque a finados do Estado Social em que os infractores saiem beneficiados, convém ter presentes estas verdades...
[FTM]

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Sugestões



Alberto Gonçalves escreve no Diário de Notícias e na revista Sábado onde, semana após semana, contribui para os serviços de cardiologia do Sistema Nacional de Saúde. Sem motivo: estivesse o país habituado à crítica irónica, independente e inteligente e as válvulas continuavam a bombar com normalidade e riso. O seu último livro é Ninguém Diga Que Está Bem. Mas eu digo: o livro está muito bem. [JPC]

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Engenharia













Todos nós entendemos de engenharia financeira. Trata-se, em resumo, de obter financiamento e de garantir receitas com alguma antecipação. Uma vasta geração de optimistas tomou conta do poder com a ideia de que a engenharia financeira era desculpável e alienável, esquecendo coisas como dívida pública, dívida externa e dívida das famílias. A maior parte dos teóricos da «engenharia financeira do Estado», como da «engenharia social», pode ser bem intencionada. As boas intenções são sempre lamentáveis porque acumulam desculpas sobre desculpas, e tratam os cépticos como «economicistas» ou «conservadores» diante do grande magistério de ousadia que representam as suas políticas de alto endividamento. Basicamente, toda a gente percebe que se gastou mais do que se devia. A única engenharia possível é a que garanta condições de financiamento da economia, coisa que não se consegue enquanto não se alterarem os comportamentos do Estado e das pessoas. Chama-se a isso temperança. Uma coisa muito conservadora.
[FJV]

Empresas amigas

Um dos flagelos do regime é a existência de empresas amigas. Estão no Orçamento de Estado — pagamos muitas das parcerias, desembolsamos muitos dos apoios às empresas amigas do Estado, que, em Portugal, se confunde muito com o governo. Por isso acho estranho que Pedro Passos Coelho peça, como uma condição essencial, que o Estado «apoie as empresas». O único apoio que as empresas devem ter do Estado é permitir que as deixem trabalhar. Aos cidadãos, que se lhes permita viver. O Estado que se meta na sua vida, que faça as suas contas, que nos deixe em paz.
[FJV]

Voltámos




















Depois da primeira emissão da nova série de A Torto e a Direito (que contou com a presença de Miguel Portas, eurodeputado do Bloco de Esquerda, como convidado), a equipa-base (faltou a Rita Severino, excelente produtora do programa) reuniu — para jantar. Foi no Mãe d’Água/La Cocina de Angel, no Jardim das Amoreiras, em Lisboa, que nos encontrámos para, imagine-se, discutir as próximas eleições e aprovar o orçamento, tudo ao mesmo tempo. Algumas imagens dão conta do grande sentido de responsabilidade (coisa muito pedida, ultimamente) da equipa.
[FJV]

Sugestões de sábado passado











Roger Scruton, The Uses of Pessimism (Atlantic Books): em tempos de crise, um dos grandes filósofos contemporâneos aborda questões contemporâneas alertando para os riscos do optimismo – como uma dependência do sistema político actual.











Não concordando com muitas das posições de Margarida Santos Lopes (jornalista do Público) quando se trata do Médio Oriente, não tenho dúvidas em afirmar que o seu Dicionário é um elemento fundamental de trabalho e o testemunho de um espírito que busca esclarecimento e que se dedica ao tema com grande honestidade.
[FJV]

Dois posts a reter.

«Estes são os melhores anos de Portugal. Não temos ilusões e está tudo por fazer. Nada esperamos da Europa, das obras públicas ou da canalha que nos prometeu o céu.»
Luís M. Jorge, no Vida Breve

«Somos todos iguais – eis o que se descobre nos autocarros – um igualitarismo rodoviário, co-financiado pelo Estado, não vale a pena simular enjoos perante o que se ouve, a pornografia da alma é uma grande conquista das nossas sociedades, todos nus e de mãos dadas num reality-show ininterrupto.»
Bruno Vieira do Amaral, no A Douta Ignorância
[FJV]

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Estado Social

Esta é uma interessante questão: saber exactamente quando o primeiro-ministro descobriu a existência do Estado Social. Esta manhã, leio no Diário Económico as declarações de José Sócrates: este orçamento «protege o emprego e protege o modelo social». Não podia ser mais delirante. A questão não é nova e tem a ver com a interessante definição de «esquerda» praticada pelo primeiro-ministro – várias vezes, ao longo da sua primeira legislatura, e temendo que os deuses do socialismo se voltassem contra ele, José Sócrates apareceu em público defendendo que as suas medidas eram «de esquerda». Passaram a ser «de esquerda» o código de trabalho, o computador Magalhães, o défice, o casamento de pessoas do mesmo sexo, a regionalização, o Instituto do Azeite, o Observatório das Aves, tudo o que o governo decidisse ser «de esquerda». Era «de esquerda» aquilo que o o primeiro-ministro entendia ser «de esquerda». Com o Estado Social passa-se exactamente a mesma coisa: o primeiro-ministro, pra ser «de esquerda», elegeu a defesa do Estado Social como uma das suas prioridades; é uma questão de princípio. Se toma medidas contrárias ao Estado Social, isso não tem qualquer relevância – trata-se de defender o Estado Social, mesmo se estas medidas contrariam as anteriores, tomadas em defesa e promoção do Estado Social. Trata-se de defender uma linguagem, esperando que ela substitua a realidade propriamente dita.
[FJV]

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Sugestões


A análise do discurso e dos discursos de Oliveira Salazar na dissertação do mestrado de José Martinho Gaspar. Convém não esquecer:
«Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e a sua História; não discutimos a autoridade e o seu prestígio; não discutimos a família e a sua moral; não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.»
Era um tempo de certezas...
[FTM]

sábado, 8 de maio de 2010

Sugestões II


Se gosta de História e de pequenas histórias de pessoas reais, vai gostar deste livro de José Pedro Castanheira que, após uma exaustiva investigação, nos relata o que foi a vida de Ayres Azevedo, um «cientista português no coração da Alemanha nazi» dedicado a investigar «ciências raciais», «higiene racial e demográfica» e «anormalidade em cruzamentos raciais»
Regressado a Portugal, curiosamente, foi maltratado pela Academia...
[FTM]

Sugestões I

O MES foi um movimento político que nasceu, se desenvolveu e morreu entre 1970 e 1981. Situado, em termos tradicionais, na extrema esquerda não marxista-leninista, nele militaram personalidades tão variadas quanto Jorge Sampaio, Nuno Teotónio Pereira, José Galamba de Oliveira e Ferro Rodrigues. E um mestre que nos abandonou demasiado cedo: Victor Wengorovius.
Este livro relata-nos essa "improvável aventura" através da pena de dois dos seus recomendáveis militantes: Paulo Bárcia e António Silva.
A ler, especialmente se viveu com interesse e intensidade, o pós-25 de Abril de 1974.
[FTM]

Acção directa

O deputado Ricardo Rodrigues ao apossar-se do gravador dos jornalistas da revista Sábado por não estar a gostar da entrevista dá, pelo menos, a noção da desorientação em que estava. Ao intentar uma providência cautelar e ao entregar o gravador a um "fiel depositário", como foi dito, está a "fugir para a frente" e a contribuir para a judicialização da política.
Embora este episódio possa não ser mais do que um "fait divers" é, seguramente, um lamentável "fait divers"...
[FTM]

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Sugestões

A tese de doutoramento do Pe. João Seabra, que é também licenciado em Direito, passa a ser um livro essencial para quem se interessa pela 1.ª República e pelo anticlericalismo.
Confesso que ainda só o folheei mas sei, pelo menos, duas coisas:
1. É um livro bem escrito, cheio de informação útil e que toma partido;
2. Irei discordar de muitos dos seus pressupostos, opiniões e conclusões.
Recomendo, pois, sem quaisquer dúvidas, a sua leitura .
[FTM]

Sugestões


Churchill dizia que era o pior regime, com a excepção de todos os outros. John Keane, em Vida e Morte da Democracia (Edições 70), concorda, traçando uma história da democracia desde os Gregos até hoje. Deixa avisos. Os mesmos que Tocqueville deixou há quase dois séculos: nenhuma democracia sobrevive sem vigilância permanente. Uma lembrança apropriada, sobretudo com evidências destas.
[JPC]

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Lá como cá...

Sarkozy anuncia que quer que deixem de ser pagas as prestações sociais aos pais que não garantam a assiduidade escolar escolar dos filhos.
O problema, parece, é que a medida já está prevista na lei, com um pequeno interregno, há mais de 50 anos mas não é eficaz, nem útil nem justa, correndo-se o risco de, na situação de crise económica em que vivemos, empurrar para maior miséria ... alguns miseráveis.
Basta pensar que as razões para o absentismo podem ser diversas para se vislumbrar as injustiças possíveis. E não será o corte das prestações sociais que irá ressuscitar a autoridade na família. Se quiser saber um pouco mais sobre o assunto, aconselho uma visita ao Libération.
[FTM]

Sugestões


Inspirados pela nova-iorquina The New Criterion (pessoalmente, a melhor revista highbrow do mundo), jovens intelectuais paulistanos ergueram a Dicta & Contradicta. Para aperitivo, a malta tem um blogue.
[JPC]

«Intolerâncias»

Como seria de esperar, a visita do Papa a Portugal já deu origem a uma pequena e comovente polémica sobre a tolerância de ponto decretada pelo Governo. Os fanáticos do costume decretaram que pretendiam trabalhar nesses três dias a bem da separação do Estado e da Igreja e – pasme-se – em prol da produtividade nacional que, na sua douta opinião, não pode ser abalada pela visita de um "líder religioso qualquer" que decida deslocar-se ao nosso país. Até a CIP e as centrais sindicais, esses pilares da nossa economia, se pronunciaram patrioticamente contra a decisão tomada pelo Governo, alertando para a crise em que vivemos e para a necessidade dos funcionários públicos contribuírem, com o seu trabalho, para o aumento da produtividade e para o desenvolvimento da pátria.
É evidente que este reconhecimento súbito do estado em que nos encontramos não deixa de ser salutar, sendo de esperar, nomeadamente por parte dos sindicatos, exemplos futuros de responsabilidade e compreensão pela situação em que se encontram as finanças públicas e a economia portuguesa. Custa-me a crer que sindicalistas, tão atentos aos custos da visita do Papa, se entretenham depois a promover greves que, para além de não levarem em linha de conta a crise em que nos encontramos, não contribuem certamente para o dito aumento da produtividade. Tudo isto seria um pouco ridículo – e é – se por trás destes nobres objectivos não se escondesse o velho preconceito contra a Igreja e o zelo anticlerical de meia dúzia de figuras públicas, sempre em busca de crucifixos nas escolas e de outros sinais religiosos no espaço público. Ao contrário do que tem sido dito, o que está em causa não é a neutralidade do Estado em relação às diversas religiões, mas a incapacidade de perceber que, num país de tradição católica, o Papa não é um "líder religioso qualquer", como tem sido amplamente referido.
Pretender equipar a visita de Bento XVI à visita de qualquer outro líder religioso (hindu ou muçulmano, como já vi defender) é não compreender a realidade portuguesa e desconhecer totalmente a sua história. Há uma ligação entre o País (e o ocidente, em geral) e a Igreja que um Estado laico deve saber reconhecer. Um Estado laico não é sinónimo de um Estado anti-religioso, incapaz de compreender a dimensão pública da fé. E a crer nalgumas coisas que por aí têm sido escritas, dá ideia de que o Papa, não lhe sendo retirado o direito de viajar pelo mundo, devia ter, pelo menos, a decência de o fazer clandestinamente. De forma a não importunar ninguém. Porque o problema é que este Papa, em particular, importuna.

[CCS, Correio da Manhã]

Sugestões


Uma leitura emocionante através de uma viagem pelo interior da vida de um ditador e de uma ditadura sul-americana. Ingenuidade, perversão, maldade, raiva e ódio entre outros ingredientes. O livro já tem uns anos mas, se não o leu, pode agora comprá-lo por 7,50 euros. Não se arrependerá.
[FTM]

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Sugestões


" As cartas da condessa de Rio Maior permitem-nos reconstituir alguns acontecimentos importantes da História de Portugal e perceber a forma como a alta aristocracia se comportava. Poucas mulheres da sua classe saberiam observar como ela observou, pensar o que ela pensou, escrever como ela escreveu" (Maria Filomena Mónica).
O século XIX tem a vantagem de ser suficientemente longe para ser História e ser suficientemente perto para (quase) sermos testemunhas...
[FTM]

domingo, 11 de abril de 2010

Arranjos económicos, arranjos políticos, arranjinhos









Por que será que quando ouço um empresário português discretear sobre as soluções para os arranjos económicos (não sobre a economia), ouço também — como uma espécie de ruído de fundo – os arranjos políticos que lhe estão na base? Por outro lado, quando um empresário se propõe defender os interesses do Estado, é como se ele estivesse realmente lá dentro, manobrando a máquina propriamente dita. Golden share é isto mesmo: «Ai o que será de nós se se acaba a golden share?»
[FJV]

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Sugestões

Música de fusão ? Talvez ...
Música de sedução ? De certeza !
A guitarra portuguesa e a cítara, de cordas dadas, criaram neste "Lis Goa", um universo sonoro e visual que vale mesmo a pena percorrer. Para além de mestre António Chainho, pode contar com muitos outros músicos e intérpretes nesta viagem com partida de Portugal, passagem pela Índia e regresso ao nosso país.
Raimund Engelhardt, Paulo Sousa, Natasha Lewis, Isabel Noronha, Tiago Oliveira, Carlos Barreto Xavier e Sónia Shirsat são os co-responsáveis por estes momentos de encantamento que se recomendam vivamente.
[FTM]

quarta-feira, 31 de março de 2010

Sugestões


Já tinha saudades de Isabelle Adjani. Já tinha saudades de Isabelle Adjani em filme competente sobre professora de liceu que sequestra a turma em momento psíquico e existencial de não-retorno. Numa altura em que Portugal fala da indisciplina escolar, O Dia da Saia talvez sirva de aviso.
[JPC]
P.S. - Na Folha, escrevi texto longo sobre o filme. Para os interessados, follow me.

Sugestões


Esta Páscoa não perca todo o seu tempo a ler livros existencialistas. É certo que é sempre bom procurar um sentido para a vida e mesmo encontrá-lo mas também é muito agradável vivê-la sem nenhum sentido. Ou melhor, com um ligeiro sentido musical...
Pode escolher ou acumular: os 4 cd's de Yehudi Menuhin & Stéphane Grappelli são uma edição em promoção, à venda em qualquer loja de discos perto de si, com dezenas de memoráveis adaptações e arranjos musicais.
Já o disco "Evelyn Evelyn" é uma obra que, para já, terá de encomendar no site oficial destas gémeas fictícias que nos trazem uma divertida história e festa musical cheia de humor (negro) e alegria (roxa). Poderá não ser Santa mas será, concerteza, uma Excelente Páscoa...
[FTM]

segunda-feira, 29 de março de 2010

«A receita»

«Esperava uma vitória de Pedro Passos Coelho. Não esperava uma vitória tão folgada. Existem diferenças. Com uma vitória modesta, Passos Coelho teria vários abutres a pairar sobre a sua carcaça. Com uma vitória folgada, Passos Coelho não se limitou a espantar as aves. Ele enfiou-as na gaiola para os próximos tempos: Marcelo continuará na universidade (e no comentário) até às presidenciais de 2016; Rangel rumará para Bruxelas; e Rio ficará no Porto, descendo à capital apenas se a liderança de Passos Coelho falhar. E, para falhar, basta que o novo líder repita os erros do consulado anterior, afastando inimigos internos e diabolizando os externos.
Se afastar os inimigos internos, Passos Coelho fará com os outros o que Ferreira Leite fez com ele: uma espécie de nobilitação à dissidência. E se apostar no atrito político para derrubar Sócrates, o novo PSD estará a fazer um favor ao velho PS. Porque será a economia, e não a política, a selar o destino do primeiro-ministro.
Esperar sem se comprometer podia não ser a receita do ‘jovem’ Passos Coelho. Resta saber se o ‘jovem’, entretanto, vai crescer.»

[JPC, Correio da Manhã, 28/3/2010]

quarta-feira, 24 de março de 2010

Google v. China

A Google decidiu acabar com o "casamento de conveniência" com as autoridades chinesas que permitia a censura das buscas feitas através do Google China. A partir de agora, as buscas são redireccionadas para o site da Google em Hong-Kong sem censuras.
Claro que as autoridades chinesas podem bloquear o acesso a esse site e, por isso mesmo, a Google criou uma página com um gráfico onde se pode acompanhar diariamente o tipo de dificuldades criados pelas autoridades chinesas no acesso a diverso tipo de serviços.
É uma decisão que indiscutivelmente se deve aplaudir, independentemente de poder, também, ter sido influenciada pelos resultados menos brilhantes que a Google tem tido no mercado chinês.
PS. Na nossa tradição portuguesa, nunca podemos dizer bem de nada nem de ninguém, sem logo referir uma qualquer mácula, mesmo que de um passado longínquo, do elogiado ...
[FTM]

terça-feira, 23 de março de 2010

«Três saídas»

«O PS faz lembrar aquelas famílias onde não há pão e todos protestam sem ninguém ter razão. Que nos diz a ala esquerda do partido? Diz-nos que Sócrates se transformou num terrível ogre de direita, disposto a cortar prestações sociais e a atraiçoar o legado do PS. Só faltava mesmo acrescentar que esse legado conduziu o País à situação de decadência económica que o PEC, coitado, não conseguirá evitar.
E não conseguirá evitar porque o documento é uma colecção de remendos para tapar o buraco das contas públicas. Sobe-se aqui (impostos), corta-se ali (subsídios vários), vende-se mais além (privatizações) e, nos intervalos, reza-se: para que a economia, que não cresceu em tempos de vacas gordas, desate agora a crescer no tempo das magras. No meio do circo, não existe uma única ideia consequente sobre a necessidade de redimensionar um Estado que consome de mais, faz de menos e gasta o que não pode.
Como diria um conhecido economista brasileiro, os portugueses de hoje têm três saídas: a liberalização do Estado; o Aeroporto da Portela; ou o Aeroporto Sá Carneiro. O resto é ruído.»

[JPC, Correio da Manhã, 20/3/2010]

domingo, 21 de março de 2010

Sugestões

"O Rolando tinha uns cinquenta anos e vivia há mais de trinta nos jazigos do cemitério de Avellaneda. Era por isso que quase ninguém o levava a sério. E mais ainda quando estava bêbedo. Eu, pelo contrário, pensava que as pessoas podem viver onde lhes apetecer".
"Estávamos no Verão, um ano depois do nascimento da minha maninha. Tinhamos juntado cerca de cem pesos para ir à Villa Mariel e estrear-nos com uma puta. Demorámos um mês a vender as rifas de um cabaz familiar a um peso cada uma, dizendo que precisávamos de dinheiro para comprar camisolas para nossa equipa".
Recomendam-se estas aventuras de um "puto" pobre argentino contadas pelo próprio...

[FTM]

terça-feira, 16 de março de 2010

O Congresso e a Rolha

Constituem deveres dos militantes do PSD, nos termos da alínea f) do n.º1 do artigo 7.º dos Estatutos , "ser leal ao Programa, Estatutos e directrizes do partido, bem como aos seus Regulamentos".
A violação deste dever por parte de um militante passou a ser considerada uma "infracção grave, especialmente quando a mesma se consubstanciar na oposição às directrizes do Partido no período de sessenta dias anterior à realização de actos eleitorais nos quais o PPD/PSD apresente ou apoie candidatura" e dará direito à suspensão do militante até dois anos ou à sua expulsão.
Esta alteração estatutária, apresentada ao XXXII Congresso Nacional por Pedro Santana Lopes, como sempre pouco crente no valor da liberdade de expressão, é lamentável e inútil. Mas não é estalinista.
O seu a seu dono.
[FTM]

Sugestões

" A esplanada estava vazia. No restaurante, mais concorrido, vi Frau Else. Instalada numa mesa perto do balcão, dois homens de fato e gravata faziam-lhe companhia. Não sei porque é que pensei que um deles era o seu marido, ainda que a imagem que guardava dele em nada se parecesse com aquele. Tratava-se sem dúvida de uma reunião de negócios e não quis importunar. Também não desejava mostrar-me tímido e com este propósito aproximei-me do balcão e pedi uma cerveja. O empregado demorou mais de cinco minutos a servir-ma. A sua morosidade não obedecia ao excesso de trabalho, que até era pouco."
Ou ainda, "Jantámos no Costa Brava. Como era de prever, o jantar acabou por não ser animado. Frango com puré de batata e ovos estrelados, salada, café e gelados, que os empregados de mesa, a par do que estava a contecer (na realidade éramos o alvo de todos os olhares), nos serviram com uma afabilidade fora do comum. O nosso apetite não diminuiu".
Um permanente mal estar muito bem escrito...
[FTM]

segunda-feira, 15 de março de 2010

Sugestões



Será possível realizar um filme sobre a guerra do Iraque que não seja um filme sobre a guerra do Iraque? Afirmativo. Kathryn Bigelow conseguiu-o: uma obra de guerra e sobre a guerra sem as piedades panfletárias da praxe. Ganhou o óscar. Mereceu. O DVD já chegou a Portugal.
[JPC]

«Creche e aparece»

«Quantos dias terá o Congresso do PSD? Pessoalmente, o Congresso podia acabar poucas horas depois de começar. Com o discurso de Manuela Ferreira Leite. O que virá a seguir será com certeza babugem eleitoralista e inútil.
O discurso de Ferreira Leite, pelo contrário, foi simultaneamente triunfal e trágico. Triunfal, porque foi possível ver, talvez pela última vez, uma mulher sem carisma mediático a repetir o que hoje é consensual: o Estado caminha para a falência; os partidos estão em descrédito; o regime está atolhado em falsidades. Mas quem, há cinco meses, esteve interessado em ouvir este sermão?
O lado trágico está aqui: as eleições não se ganham com verdades; ganham-se com mentiras porque os portugueses preferem-nas. E se existiu erro no consulado de Ferreira Leite foi o de sobrevalorizar a maturidade dos portugueses; a crença ingénua de que era possível falar para adultos. Não é.
Para regressar ao poder, não basta ao PSD eleger um líder e esperar que o eng. Sócrates caia da cadeira. É preciso nivelar o discurso com a idade mental do eleitorado.»

[JPC, aqui]

sábado, 13 de março de 2010

Avisam-se as tropas...

... que o «Torto» vai ao Congresso. Se, evidentemente, ainda houver Congresso quando os quatro lá chegarem.

terça-feira, 9 de março de 2010

«Ausência de alternativa»

«Costuma-se dizer por aí que não é a Oposição que ganha as eleições mas sim o Governo que as perde. A fazer fé nesta tese, bastaria à Oposição ficar quieta e em sossego para que o poder, mais tarde ou mais cedo, lhe viesse parar docemente às mãos sem mérito, nem esforço e sem sombra de qualquer projecto alternativo. Numa situação destas, as eleições, como é óbvio, não seriam mais do que um expediente formal que legitimariam, com o voto, uma situação sem saída.
É verdade que, nos últimos tempos, as demissões extemporâneas do eng. Guterres e do dr. Durão Barroso vieram dar corpo a esta tese. Com os lindos resultados que se viram, diga-se de passagem. Mas estes dois exemplos – e, se quiserem o do prof. Cavaco Silva que decidiu não se recandidatar em 95 – não justificam, por si só, uma tese que assenta, antes de mais, num dado nem sempre adquirido que é a demissão do primeiro-ministro. Basta ver o resultado das últimas eleições legislativas para se perceber que as coisas não funcionam assim de forma tão simples: embora o PS tenha perdido a maioria absoluta e um número significativo de votos, o PSD não só não beneficiou disso como teve um dos piores resultados de sempre.
Porque o povo é estúpido, como afirma Vasco Graça Moura? Não, porque os eleitores, na sua maioria, não viram no PSD uma alternativa ao Governo do eng. Sócrates, nem se reconheceram na campanha eleitoral do partido – uma campanha de tal forma desastrada que, agora, tarde e a más horas, até o dr. Paulo Rangel, o presumível herdeiro da dra. Ferreira Leite, achou por bem distanciar-se da estratégia adoptada para as legislativas.
Neste sentido, a sondagem publicada, na semana passada, pelo ‘Público’, onde a maioria dos inquiridos considera que o eng. Sócrates mentiu ao Parlamento sem que isso os impeça de lhe dar uma maioria folgada nas legislativas, caso estas se realizassem agora, também dá que pensar. Porque o povo não é muito sensível à mentira? Porque acha que todos mentem? Porque não tem particular apreço pelo Parlamento e por tudo o que por lá se passa? Haverá de tudo isto um pouco. Mas basta olhar para a campanha interna do PSD para se perceber que o partido não é mais do que um poço de intrigas, dominado pelo aparelho e por meia dúzia de baronetes que se julgam imunes a toda e qualquer responsabilidade.
O resultado é um espectáculo penoso entre três candidatos que não se distinguem por uma ideia e se desdobram nas mais despropositadas propostas. Um partido assim não oferece garantias de nada e não é alternativa a coisa nenhuma.»

[CCS, Correio da Manhã]

Sugestões



Descobrir um novo autor é a alegria suprema de qualquer cinéfilo. Aconteceu comigo. Aconteceu com Valerio Zurlini, um gigante do cinema italiano que não me tinha ainda passado pelo radar. Vejam Um Verão Violento (1959), A Rapariga da Mala (1961), Outono Escaldante (1972) e O Deserto dos Tártaros (1976). Nunca o dilema clássico do desejo e do dever conheceu tratamento igual. Meço as palavras.

[JPC]

Sugestões

"Cede de boa vontade a honra que te é feita, de te sentares em primeiro lugar; convidado que és a tomar um lugar de maior distinção, dispensa-a de uma forma afável; se insistirem, por diversas vezes e com convicção, e se a pessoa que te fizer tal pedido desfrutar de alguma autoridade, aceita, mas com modéstia, resistir mais pareceria um sinal de obstinação, e não de educação."
Este, simpático e actual, manual de educação para a juventude foi publicado em 1530, sendo seu autor Desidério Erasmo de Roterdão.

Erasmo de Roterdão (1469-1536) foi, sem dúvida, a personalidade cultural europeia mais importante da sua época não só pela sua actuação em prol da reforma não-violenta dos costumes, religião e mentalidades da Europa, impulsionando-a sair das limitações da Idade Média e introduzindo-a na sabedoria livre e harmoniosa do Renascimento, como, sobretudo, pelos muitos livros que escreveu, traduziu, restabeleceu ou comentou e pela rede de contactos que dinamizou, seja nas suas inúmeras viagens pela Europa seja pela via epistolar, destacando-se entre os seus melhores amigos Thomas More, John Colet, John Fisher, Reuchlin, Budé, Dürer, Aldo Manúcio, Fröben e Damião de Góis.
A sua criatividade pedagógica resistiu à passagem do tempo e obras como o “Elogio da Loucura”, o “Modo de orar a Deus”, os “Adágios” e os “Colóquios”, continuam a ser apreciados, traduzidos e comentados. Algumas citações de Erasmo:
- Por muito que os antigos tenham dito,muito deixaram para ser dito pela posterioridade.
- Defendo a existência do menor número de leis possíveis, que sejam bem conhecidas de todos, e que respondam ao arquétipo da honestidade e da equidade, sem outra intenção que o bem comum poder ser melhor prosseguido. Todas as leis devem dirigir-se sempre à utilidade pública, não segundo a opinião vulgar, mas de acordo com o parâmetro da sabedoria.
- A “filosofia de Cristo” que o próprio Cristo chama um renascimento não é senão a restauração da natureza fundada boa.
- Os que adornam os mosteiros com custo excessivo, quando tantos templos vivos de Cristo estão em perigo de morrerem à fome, tiritam despidos, e são torturados pela falta dos bens necessários, parecem-me culpados de um crime capital.
- Não nego que procuro a paz sempre que possível. Sou a favor de ouvir ambos os lados com ouvidos bem abertos. Amo a liberdade. Não servirei, nem posso servir nenhum partido .

[FTM]

terça-feira, 2 de março de 2010

«A histeria de novo»

As audições promovidas pela Comissão de Ética transformaram-se no que seria de esperar: um espectáculo penoso, recheado de heróis improváveis e de malandros impenitentes que se digladiam entre si, a reboque dos mais diversos interesses partidários.
Para começar, convém dizer que as intenções da Comissão eram, já de si, insondáveis. Discutir, em abstracto, a liberdade de expressão sem especificar os limites do debate nem as condições em que este se exercia permitiu que coubesse lá tudo e mais alguma coisa: das manobras do primeiro-ministro à inverosímil "cabala" atribuída ao Presidente da República, passando, quem sabe, pela "ditadura da maioria" dos idos de Cavaco Silva. Perante a ausência de objectivos determinados, nada garante que a lista das pessoas a ouvir não possa vir a atingir proporções épicas e que, dentro de um ano, ainda estejamos às voltas com os mais diversificados atropelos à liberdade de expressão que se verificaram ao longo da nossa história.
Em segundo lugar, também não é fácil perceber o critério que presidiu à escolha das personalidades convocadas, nomeadamente à dos jornalistas. Pelo que percebi, e posso ter percebido mal, cada partido escolheu os jornalistas que lhe convinha, o PSD as hipotéticas vítimas, o PS os supostos amigos e o Bloco, beneficiando da confusão reinante, os que podiam comprometer o Presidente da República. Esta mistela, como é bom de ver, não augurava nada de particularmente bom. Infelizmente, o que se seguiu ultrapassou as piores expectativas. E se os políticos, para variar, se têm saído mal de todo este imbróglio – basta ver a incompetência da generalidade dos deputados a quem está entregue esta Comissão – não se pode dizer que os jornalistas tenham primado pela elevação.
O que se assistiu nesta primeira semana de audições é apenas um sinal do que nos espera nos próximos tempos: uma série de egos desorbitados, várias acusações fúteis e os previsíveis ajustes de contas de que ninguém sai a ganhar. Eu sei que, neste momento, Mário Crespo é uma das vítimas da liberdade e que nessa qualidade deve, segundo alguns teóricos, ser alvo da solidariedade de todos quantos não estão "vendidos" aos interesses do engº Sócrates. Ora, eu não estou, nem nunca estive "vendida" aos interesses do engº Sócrates, mas considero que a actuação de Mário Crespo na Comissão de Ética foi um exercício deplorável que enxovalha o jornalismo e a Assembleia da República. Um exemplo, como já disse, da histeria que hoje em dia reina em Portugal.»

[CCS, Correio da Manhã]

«A trela invisível»

«Existe uma forma subtil de o poder político premiar ou punir os órgãos de comunicação: através da publicidade institucional. Quando o órgão é manso, recebe o seu biscoito. Quando o órgão ladra e morde, a ração é controlada. Por isso é fundamental saber quanto se gasta e, sobretudo, onde se gasta o dinheiro público: a ‘liberdade de expressão’, hoje, não se faz com comissões prévias de censura. Faz-se com o livro de cheques na mão. A trela é a mesma.
Infelizmente, esta informação simplória foi recusada ao Parlamento e aos portugueses. O Bloco de Esquerda requereu (várias vezes) uma lista com as despesas em publicidade efectuadas em 2008/09 por ministérios, institutos ou empresas do Estado. Meses depois, o governo admite que não sabe, não quer saber e tem raiva a quem sabe. ‘Não há registos’, diz o ministro Lacão, uma resposta que faria sentido em Chicago, nos anos 20, e não num país da União Europeia, em 2010.
Percebe-se: se não há registos, não há abusos; se não há abusos, não há problemas; se não há problemas, tanto barulho para quê?»

[JPC, Correio da Manhã]

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Sugestões


A Pordata é uma notável realização da Fundação Francisco Manuel dos Santos cuja visita se aconselha e que procura "tentar responder às necessidades de informação credível, tantas vezes dispersa e de acesso nem sempre simples por parte de um público o mais amplo possível, independentemente das suas competências em lidar com estatísticas (...) São doze os temas com que se inicia a Pordata: População; Saúde; Educação; Protecção Social; Emprego e Mercado de Trabalho; Empresas e Pessoal; Rendimento e Despesas Familiares; Habitação e Conforto; Justiça; Cultura; Contas Nacionais; Contas do Estado. Cada um destes temas está subdividido em vários subtemas, que incluem múltiplas séries de dados estatísticos. (...) Os dados de base disponibilizados na Pordata são da exclusiva autoria de entidades oficiais com competências de produção de informação nas áreas respectivas"

"No final de Agosto, os italianos negociaram a rendição dos bascos. Conforme acordado, as principais figuras políticas bascas deviam zarpar do porto de Santoña a bordo de dois navios britânicos. No entanto, quando as embarcações deixaram o porto, Franco deu ordens para que navios nacionalistas as bloqueassem, tendo depois exigido que os prisioneiros lhe fossem entregues. Após um impasse de vários dias, os italianos relutantes acabaram por concordar. Os nacionalistas trataram de organizar julgamentos sumários, findos os quais centenas de pessoas foram fuziladas".
"FRANCO" de Michael Streeter: um livro pequeno e bem escrito.

[FTM]

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Música política


O artigo de James Taranto no Wall Street Journal é divertido e enganador.
James Taranto parte de um excerto do mais recente livro de Philip Ball em que este afirma que a música clássica moderna, depois de Schoenberg, é mais difícil para o cérebro em virtude da sua atonalidade. Acrescenta-lhe uma "colherada" de David Huron que entende que a música clássica moderna, por ser imprevisível na sua evolução, frustra os ouvintes, pelos constantes falhanços nas antecipações que fazem, o que os impede de terem o prazer da correcta antecipação .
Deste "mix" conclui James Taranto, que a música clássica moderna não dá prazer ao ouvinte (como se o prazer só pudesse resultar da correcta antecipação) e é uma fraude ...
E, numa enganadora analogia, James Taranto conclui que também o plano de saúde de Obama é uma fraude. Um artigo divertido e enganador.
[FTM]

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Sugestões


Amin Maaalouf é um autor conhecido, seja como romancista ou ensaísta. Este livro é uma obra bem escrita que nos dá uma visão da realidade bastante apurada, nesta época de erosão das democracias e da emergência de um impasse histórico no mundo árabe. As soluções, claro, não existem embora Amin Maalouf procure a redenção na cultura e na construção da solidariedade a nível da humanidade.
Claro que vale a pena percorrer esta história da humanidade guiados por Maalouf.
[FTM]

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Sentido de Oportunidade - II

É verdade.
E, no entanto, era um popular na Madeira que, face à tragédia, comentava: "... havia ali uma ribeira... fizeram-se as estradas..."
Verdade seja dita que não vi as declarações do representante da QUERCUS e, às vezes, a forma como se diz e o que se diz, matam o que se queria/deveria dizer.
[FTM]

Sentido de oportunidade

No meio do caos e da catástrofe, a primeira das prioridades é cuidar dos vivos e ajudar. Um dirigente da Quercus aproveitou para, no meio do caos e da catástrofe, lembrar que a Quercus tinha razão.
[FJV]

Helena









Por motivo de doença, João Pereira Coutinho não participa no programa deste fim-de-semana; em sua substituição junta-se à mesa Helena Matos. Bem-vinda. E rápidas melhoras para o João.

Ética e liberdade e comissão de inquérito. Tudo na Bimby.

É visível, finalmente, que o debate sobre a liberdade de expressão no Parlamento está a seguir o caminho esperado, o da dissolução pura e simples. A liberdade de expressão — reduzida à questão da «liberdade de imprensa» — não é coisa para discutir no parlamento, entre pares com telhados de vidro e departamentos de comunicação & imprensa. Chamar este ou aquele, ouvir considerações, exemplos que dão vontade de rir, proclamações de ética geral, é mais do que metade do caminho para não chegar a lado nenhum. Ora, não chegar a lado nenhum, se não me engano, é coisa que favorece o estado de coisas. Para quem criticou a declaração do primeiro-ministro, bem pode limpar as mãos na parede. Ficámos cientes. Mas, pior do que isso, é transformar epifenómenos políticos em tramóias criminais e juntar tudo na Bimby. Velocidade turbo.

[FJV]