domingo, 20 de março de 2011

Sugestões














1. O disco de Luisa Sobral "The Cherry on My Cake" é uma simpática alegria e companhia. Uma voz bonita e divertida em canções muito variadas, algumas em português, a maior parte em inglês. Esteve lá fora, estudou e vem cheia de coisas boas. Não hesite: compre e ouça !

2. No nosso país, graças ao fundamentalismo de alguns e à inércia de muitos, continuamos a não poder decidir da nossa morte e a ficar à mercê do bom senso ou da falta de senso dos médicos que nos estiverem a acompanhar. A legislação sobre o Testamento Vital ou a Directiva Antecipada arrasta-se no nosso Parlamento mas se quiser perceber o que está em jogo, o que pode fazer e, sobretudo, esclarecer-se sobre estas questões tão importantes, não pode deixar de ler o livro "Testamento Vital - O que é ? Como elaborá-lo ?" da autoria de Laura Ferreira dos Santos, uma das pessoas que mais sabe sobre o assunto (Sextante Editora).

[FTM]

segunda-feira, 14 de março de 2011

A continuação...

O porta-voz do Departamento de Estado, J.P. Crowley demitiu-se ontem.

[FTM]

domingo, 13 de março de 2011

Obama v. Obama ?


Bradley Manning é o soldado americano que foi preso em Maio de 2010, no Iraque, suspeito de ter passado à Wikileaks uma imensidão de documentos classificados, entre eles os famosos telegramas diplomáticos que, quanto ao nosso país, tão bem retratam a miséria (cultural) nacional, em especial, na compra do equipamento militar.
Os EUA ainda não conseguiram apanhar Julien Assange e acabar com a Wikileaks (1.ª Emenda "oblige" e a web não facilita) embora não desistam de o fazer. Uma das formas possíveis de o incriminar seria provar que tinha sido ele quem teria aliciado o jovem soldado a desviar a documentação em causa. Para levar Bradley Manning a confessar essa conveniente verdade, a estratégia tem sido, em violação da lei, a manutenção de Bradley Manning em condições prisionais extremamente duras, em isolamento total e só com direito a uma hora por dia fora da cela. Recentemente, na sequência de queixas apresentadas por Manning quanto à sua situação, passou a ter de obrigatoriamente despir-se todas as noites, dormindo nu, segundo as autoridades militares para evitar o seu suicídio...
Mas Crowley, porta-voz de Hillary Clinton, veio agora dizer, num seminário do MIT em Boston, que Bradley Manning estava ser maltratado pelas autoridades militares, afirmando expressamente que o que lhe está a ser feito "... é ridículo e contraprodutivo e estúpido da parte do ministério da Defesa".
Obama já veio, pelo seu lado, dizer que as autoridades militares lhe confirmaram que estão a ser respeitados os "basic standards"ao mesmo tempo que as Nações Unidas investigam se estão perante um caso de tortura... (T0 be continued)
[FTM]

Ora aí está

Interrogado sobre a manifestação da «geração à rasca» (uma designação pérfida), o primeiro-ministro respondeu que compreendia bem os «problemas dos jovens» (o que é já todo um programa) e que, por isso, tinha aprovado leis como a da paridade, a do divórcio litigioso, a do casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a da interrupção voluntária da gravidez. «É assim que se constrói uma política de modernidade e uma política para o futuro», concluiu.
[FJV]

Inevitabilidade

«As pessoas» habituam-se facilmente às inevitabilidades. Por exemplo, a inevitabilidade da União Europeia como ela é gerida hoje; à inevitabilidade de não discutir, debater e votar os tratados sucessivamente assinados em nosso nome (como se sabe, recordem bem e não se esqueçam, porque não estávamos preparados para discutir coisas tão complexas); à inevitabilidade de todas as medidas impostas a partir da União (desde, e não estou a rir, a distância entre os dentes dos garfos, a taxa de gordura dos queijos, o tamanho e forma dos legumes — até aos cortes nas reformas, às reformas das leis laborais, etc.); à inevitabilidade dos orçamentos de Estado que era necessário aprovar, caso contrário seria a catástrofe; desde há um ano, à inevitabilidade de todas as medidas de austeridade que visam tapar buracos gerados por anos e anos de despesas indiscriminadas para «construir uma política de modernidade»; à inevitabilidade dos conluios entre o governo e as grandes empresas amigas, mesmo que isso significasse esmagar os cidadãos; à inevitabilidade de todos os sacrifícios nas «políticas sociais»; à inevitabilidade nas curvas e contracurvas da propaganda, «porque todos fazem o mesmo»; à inevitabilidade da «engenharia social» na educação ou na política de família; à inevitabilidade do governo «porque todos fariam o mesmo». Isto conduziu à anestesia geral, à indiferença, à autorização daquela bonomia feliz com que se anunciam «sacrifícios colectivos» sem discussão prévia, à contemplação embevecida de todos os «porreiro, pá», ao adormecimento da própria consciência cívica que encolhe os ombros quando um acto eleitoral está manchado por erros e boicotes óbvios. «As pessoas» tornaram-se indiferentes, autorizam tudo, acham tudo «normal», pensam que tudo é banal. Quando tudo é banal, nada é banal — tudo pode ser uma catástrofe subterrânea.
[FJV]

sábado, 12 de março de 2011

Sugestões

















Eu sei que é desagradável a actual designação do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, mas esqueça esse pormenor porque vale mesmo a pena ir ver as 3 exposições que estão por lá. A "Mappamundi" é uma festa para os olhos e para a mente, com inúmeros desafios (feitos por cerca de 50 artistas) às nossas ideias do que é um mapa. A "Tinta nos Nervos" é uma viagem sobre a banda desenhada portuguesa com representação de 41 artistas. Por último, "Observadores – Revelações, Trânsitos e Distâncias " é uma exposição que parte da colecção do museu para evidenciar "a relação triangular entre a obra de arte, o artista e o espectador". Para além do prazer que pode retirar da visita a qualquer das exposições, têm todas outra vantagem: são gratuitas. Não hesite: vá !
[FTM]

quarta-feira, 9 de março de 2011

«Mamãe eu quero»



«São uns corpos de branquelas enregeladas, à espera das dietas de abril e maio. E uns trejeitos pelintras de quem imagina o sambódromo como uma dependência de um baile de bombeiros. E um frio tremendo a bafejar os 'foliões' que vão para a rua ver passar desfiles de maltrapilhos. E uns machões de ‘tule & serpentina’ mascarados de meretrizes. E umas senhoras a gritar 'mamãe eu quero'. E uns carros alegóricos com o nariz de José Sócrates, disfarçados em cima de tratores enlameados. E uma imitação de alegria que a chuva arreda para o meio da tarde. E umas atrizes de novela à espera que tudo acabe para poderem arrecadar o modesto cheque. E neve no alto das serras, transformada em lama nas ruas cá em baixo. O 'carnaval lusitano' é um dos nossos pequenos horrores periódicos.»

Sugestões


«Company é uma peça sobre o casamento. Ou, como diria Musil, é uma peça sobre os homens sem qualidades: capazes de habitar o mundo moderno sem estabelecer nenhuma ligação substancial com os seus semelhantes.»

[JPC, na Folha, a 9/5/2007]

terça-feira, 1 de março de 2011

Moacyr Scliar (1933 - 2011)



«De Moacyr (1933-2011), os primeiros livros que li foram O Exército de um Homem Só e O Centauro no Jardim, momentos centrais de uma obra de interrogações e perplexidades. A Mulher Que Escreveu a Bíblia é um desses livros, tal como A Majestade do Xingu, uma história da emigração de judeus russos para o Brasil. O seu mundo era esse: o de Porto Alegre, a sua cidade transformada em catalisadora da sua memória judaica, da gente humilde que fugira da velha Rússia ou do comunismo. Lembro a sua casa, cheia de livros; escrevia em todo o lado, a toda a hora, sempre com um livro 'para terminar'. Ficámos amigos por causa de A Condição Judaica, um pequeno livro que mostrava o Moacyr simples, com o seu gosto pela beleza ética do judaísmo. Um adeus para Moacyr não basta.»

[FJV, no Correio da Manhã]

«Depois da farsa»



«Sócrates vai a Berlim na quarta-feira. Para receber elogios de Merkel? Seja. Mas este filme não altera o guião original: uma economia em recessão, uma despesa sem controlo e juros que nos esmagam sem piedade.
Perante este cenário, que podemos esperar a médio prazo? Não, obviamente, o que Sócrates espera: que o fundo europeu possa comprar dívida; ou, então, que venha um empréstimo sem o FMI. No horizonte, estão dois cenários funestos.
O primeiro cenário é, vergados pelos juros e com o BCE a fechar a torneira, termos um pacote semelhante ao da Irlanda e da Grécia, o que significará que o governo falhou. O segundo é a sra. Merkel dar ouvidos aos economistas alemães e entender, não sem alguma razão, que não vale a pena aplicar a terapia grega e irlandesa a Portugal quando essa terapia não estanca contágios (antes pelo contrário) e destrói a capacidade de recuperação económica dos resgatados. A solução será reestruturar a dívida e aceitar a falência: do governo e do país.
Na quarta, Merkel consola Sócrates. Uma caridosa farsa. Seria mais útil que se fosse despedindo dele.

[JPC, no Correio da Manhã]

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

«Elogio aos gagos»


«O Discurso do Rei não é um grande filme. Mas é, sobretudo, um filme exemplar sobre a mais rara das virtudes: a virtude da resiliência. Esse sentimento moral profundo de que existem deveres que não apenas são superiores a nós como exigem o melhor de nós.»

[JPC, na Folha]

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Gérard Castello-Lopes, 1925-2011


«Recordo as imagens de ‘Perto da Vista’, livro que a Imprensa Nacional publicou em 1984, e a surpresa diante das fotografias de Gérard Castello-Lopes (1925-2011). Vi-as depois, aqui e ali: um prodígio de composição, de luz, de elegância.
A sua morte (no sábado, em Paris) foi tão longínqua como o seu desprendimento em relação à fotografia, em que se identificava o traço de ligação a Cartier-Bresson. Gérard Castello--Lopes era emblema de uma geração ligada ao cinema, à perplexidade e à melancolia. Os seus textos sobre fotografia, publicados em ‘Reflexões sobre a Fotografia’ (publicado pela Assírio & Alvim há sete anos), dão parte desse cruzamento. Nenhum dos seus retratos deixa um rasto de indiferença; pressente-se um rumor, um gesto, um mundo à espera.»

Sugestões


«A internet foi a primeira grande revolução da minha existência literária. Mas o livro eletrônico será a segunda ao introduzir a mais importante divisão intelectual da vida. Haverá sempre livros que desejarei ter; e "ter" no sentido tangível do verbo: como objetos físicos, artísticos, existenciais. Nesse sentido, as livrarias continuarão a ser os únicos templos laicos que frequento com religioso fervor. Mas depois existirão os livros que quero ler. Simplesmente ler. Não amanhã, ou depois, ou um dia qualquer. Mas hoje. Agora. Já. O sonho de qualquer leitor curioso, insaciável, ditatorial.»

[JPC, na Folha]

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Fumar, urinar, mendigar




«A semana foi dominada pelo Egito. Mas existem sinais de fanatismo do outro lado do mundo. Falo de Nova York, que resolveu aprovar uma lei revolucionária sobre o fumo.
Segundo leio, o conselho municipal da cidade, na impossibilidade de exterminar fisicamente os fumantes (por enquanto), prepara-se para afastá-los da paisagem.
Fumar em parques, praias e outras zonas pedestres (como Times Square) será virtualmente impossível. E existem multas para os prevaricadores: US$ 100, ou seja, R$ 166, exactamente o mesmo para quem urina em público ou pede esmola.»

[JPC, na Folha.com]

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Patriotismos


«Na ausência de uma invasão castelhana, a esquerda, qual padeira de Aljubarrota, pegou em armas contra o FMI, lutando patrioticamente pela indigência nacional e pela sua hipotética soberania. O combate, hercúleo, diga-se de passagem, pode ter os dias contados, mas, em contrapartida, tem proporcionado tiradas grandiosas sobre os inimigos da Pátria e, melhor ainda, sobre os traidores que nela borbulham. É assim que qualquer dúvida sobre o estrondoso ‘sucesso’ que permitiu vender dívida soberana a juros de 6,7 por cento é vista como uma capitulação perante os malditos mercados que insistem em atacar-nos, fingindo desconhecer os méritos do engº Sócrates e os dados da execução orçamental de 2010, um ano exemplar, no qual a despesa disparou e o défice diminuiu graças ao fundo de pensões da PT.
Perante este quadro mental, qualquer patriota que se preze deve pois evitar falar de qualquer problema nacional, renunciar definitivamente ao debate e elogiar abundantemente o actual Governo de forma a oferecer ao mundo, e à Europa em particular, uma visão idílica de um país endividado e à beira da bancarrota, onde o desemprego dispara e o crescimento económico soçobra. Se tal não funcionar, como é natural que não funcione, sobra ao patriota em causa a opção pela luta armada: bater o pé aos especuladores, dar murros na mesa dos mercados, insultar a srª Merkel, e de passagem o sr. Sarkozy, e berrar histrionicamente contra a intervenção do FMI, esse papão que ameaça invadir-nos sob pretexto de que não podemos continuar a emitir dívida sobre dívida, durante tempo indeterminado. Para a esquerda, obviamente, podemos, até porque, em última análise, os mercados que nos atacam são os mesmos que nos continuarão a emprestar dinheiro indefinidamente.
Do outro lado da barricada encontra-se, naturalmente, a direita, que, na feliz expressão do ministro Santos Silva, 'saliva' perante a chegada do FMI para, com o seu beneplácito, poder dar asas à sua tenebrosa política contra o Estado Social que o próprio engº Sócrates se tem encarregado de desmantelar. Escusado será dizer que esta radiosa visão das coisas, onde os ‘bons’ combatem patrioticamente os ‘maus’, não resiste à mais elementar análise. Porque o que a esquerda parece não perceber é que, com ou sem FMI, o país vai ter mesmo de mudar de vida. É a vida.»




quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Novo ano, nova hora


O «A Torto e a Direito» mudou de hora: das 22h para as 23h. Mas sempre aos sábados. Em breve, os vídeos do programa estarão disponíveis no blogue.

Figuras tristes



«A campanha de Alegre mete dó. Não apenas pela forma desesperada como o bardo vai rapando o latão do lixo dos escândalos pífios (o ‘caso BPN’, o ‘caso das escutas’) para atacar Cavaco. Mas porque o homem nem se apercebe que o seu principal adversário não é Cavaco; é o PS, que o deixou entregue ao seu destino, sem se comprometer com a campanha. Não é preciso olhar para as sondagens para saber que o largo do Rato não morre de amores pelo seu candidato. Basta acompanhar as suas deambulações: todos os dias, as televisões apresentam as ‘arruadas’ de Alegre. E o que espanta é a ausência. Quando muito, Alegre tem meia dúzia de gatos pingados que o ouvem entre o bocejo e o ronco. Como foi possível chegar a isto? Fácil: pela alienação de todas as partes. A esquerda ‘independente’ que o apoiou em 2005 não lhe perdoou a rendição; e o aparelho não lhe perdoou a independência de 2005. Alegre não é apenas um homem só; é, coisa mais triste, uma contradição ambulante.»

[JPC, no Correio da Manhã]

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Pisas

«O PRIMEIRO-MINISTRO não resistiu a festejar os resultados dos alunos (de 15 anos) nos testes do PISA. Quem ama a propaganda, sucumbirá à propaganda. Não é apenas um 'trabalho de estatística', como o seriam o fim dos exames ou a falta de rigor nas provas de matemática e português, em que os seus governos insistiram. Portugal continua abaixo da média (com 487 pontos para 493 de média, contra 556 de Xangai ou 539 da Coreia). Os resultados provam que não se melhora numa legislatura nem com propaganda aos computadorzinhos – é trabalho de uma geração e vem de há mais de dez anos. Daqui a mais dez se verá se vale mais apostar na exigência e no trabalho do que no festejo das estatísticas.»

[ FJV, no Correio da Manhã ]

Morto de fome

«CAVACO SILVA está preocupado com a fome dos portugueses. Mas não de todos os portugueses: a fome de atenção de Manuel Alegre, por exemplo, não merece do candidato Cavaco uma única migalha.
Verdade que, para sermos justos, a triste condição de Alegre é responsabilidade exclusiva da dieta a que o próprio se impôs. O dilema era conhecido: como ser apoiado pelo Bloco e pelo PS sem se comprometer com nenhuma das partes? Alegre acreditou que era possível compensar tamanha falta de alimento com ataques sucessivos ao cozinheiro Aníbal. Infelizmente, não lhe ocorreu a hipótese funesta deo cozinheiro pousar os tachos. E de Alegre ficar, sozinho e famélico, a olhar para um prato vazio. E agora?
Agora, Alegre confessa que está ‘farto de se ouvir’, um sintoma clássico de subnutrição que merece ser socorrido. Estamos no Natal. E o Presidente da República, a título caritativo, devia conceder ao bardo uma palavra, um aceno, um leve sorriso. Não enche a barriga, é certo. Mas também, nesta história das presidenciais, só mesmo Cavaco é que tem a papinha feita.»

[ JPC, no Correio da Manhã ]

domingo, 7 de novembro de 2010

Tribunais Populares

Pedro Passos Coelho pretende responsabilizar civil e criminalmente quem espatifou as contas públicas. Uma ideia populista e perigosa em tempos de histeria colectiva? Não na cabeça do dr. Passos, que já anda por aí em campanha eleitoral com o nobre propósito de despejar o eng. Sócrates em 2011. Acontece que a tarefa é mais difícil do que o PSD imagina. Sim, uma moção de censura seria o caminho directo para o tesouro. Mas o dr. Passos sabe, e o dr. Louçã já avisou, que a esquerda não votará com a direita para derrubar o governo. Essa porta está fechada. Como está fechada a porta presidencial, sempre avessa a aventuras do tipo e perpetuamente obcecada com a ‘unidade nacional’. Sobra ao dr. Passos esperar que o PS ‘profundo’ se levante em armas contra o pérfido e usurpador Sócrates, isto se o pérfido e usurpador Sócrates não tiver, como se prevê, mais uma vitória norte-coreana no próximo congresso. O PSD quer voltar rapidamente ao poder; mas nenhum dos atalhos parece aberto de momento. Se calhar, a única solução que resta é mesmo pôr os tribunais a fazer o trabalho sujo da política.
[Crónica no Correio da Manhã]
[JPC]

Um boneco

Tirando os ataques à ineficácia de Cavaco e à maldade dos ‘mercados’, Manuel Alegre não acha nada sobre coisa nenhuma. Esta semana, em peregrinação aos sindicatos, o candidato presidencial inaugurou uma nova forma de fazer política, que consiste, essencialmente, em não a fazer.
Confrontado com a greve geral, Alegre não apoia nem deixa de apoiar, embora compreenda ou talvez não. A posição de Alegre é interessante e explica-se pela camisa-de-forças em que o candidato se meteu, dramaticamente dividido entre o PS e o Bloco. Mas, pergunto, não haveria uma forma caridosa de poupar o bardo a estes vexames? Penso que sim. Bastaria que a candidatura de Alegre enviasse o próprio para casa e, em seu lugar, mandasse fazer um boneco de cera, em tamanho natural, que poderia ser levado para comícios, debates e outros contactos com o povo. A coisa animava a campanha e o boneco, quando confrontado com qualquer questão, poderia sempre responder um ‘não-concordo-nem-deixo-de-concordar’. Era só puxar o fio ou, melhor ainda, enfiar uma moeda. A campanha pagava-se a si mesma.
[Crónica no Correio da Manhã]

[JPC]

domingo, 31 de outubro de 2010

Sugestões. Uma memória de fim de século.


Acabo de ler a biografia de Francisco Sá Carneiro, de Miguel Pinheiro (Esfera dos Livros, 768 págs.). Na história dos partidos não-comunistas do pós-25 de Abril, Sá Carneiro foi o único dirigente capaz de criar um partido a partir do nada. Há duas leituras essenciais da sua figura — uma, largamente maioritária, privilegia o homem que quis acelerar o fim do regime revolucionário (com um projecto de revisão constitucional anti-socialista logo em 1978, a luta contra o eanismo e o papel do Conselho da Revolução, o confronto directo com a esquerda e com a imposição dos herdeiros da I República, de que Mário Soares era a figura principal); outra, absolutamente minoritária (e de que Miguel Real é um excelente intérprete), que o vê como um personagem trágico esmagado pelo provincianismo português, de esquerda e de direita.

O livro de Miguel Pinheiro acompanha a biografia política de Sá Carneiro dia a dia, semana a semana: o desenho desse personagem é cada vez mais nítido à medida que se aproxima da morte, cercado de conspirações (grande parte delas só existia na sua cabeça, o que não quer dizer que não fossem reais), de traidores, de submarinos, mas — sobretudo — de vencidos. Ele foi o primeiro político do mainstream a perceber as vantagens do radicalismo, a não contemporizar com as terceiras vias da época, a não ter pudor em fazer da política um jogo, a afrontar os lugares-comuns da via original para o socialismo (e a não sentir esse apelo romântico) e a nomear claramente os seus adversários. Num último golpe, tentou ainda uma aproximação com Mário Soares; Soares sempre esteve aberto a essa grande coligação que tomasse o poder, desde que garantisse o seu lugar à frente da História, mas Sá Carneiro percebera como ninguém que, mesmo nos meses de fogo e chumbo de 1975, primeiro, e 1976, depois, esse projecto seria a morte do PSD, um partido que nascera como herdeiro dos liberais do marcelismo, e que, na sua matriz, era europeu, conservador à maneira inglesa (o que era difícil num pais sem grande gosto pela liberdade e com um ódio radical contra «as elites»), anti-comunista — e cuja base eleitoral era essencialmente populista. Acontece que não podia ser de outra maneira. Foi durante o curto consulado de Sousa Franco à frente do PSD que nasceu a teoria das duas matrizes do partido: ele, Sousa Franco, era o representante do PSD «urbano», «socializante», de «esquerda»; Sá Carneiro tinha o apoio das «massas rurais» sobretudo do Norte e do interior, era «anti-socialista» e não compreendia as vantagens da contemporização. A definição era tão estreita que o próprio Sá Carneiro ficou surpreendido com os riscos que corria e com a natureza do seu «radicalismo» — que os dissidentes de Aveiro, comandados por Sá Borges e pelos herdeiros de Emídio Guerreiro, e os mentores das «Opções Inadiáveis», mais tarde, definiam como caudilhismo e prepotência. Entre esses críticos estavam Sá Borges e Emídio Guerreiro, é certo, mas também Artur Santos Silva ou Magalhães Mota, Mota Pinto ou Sérvulo Correia, e todos os que entendiam que era necessário ser maleável e contemporizador, mas não tinham entendido suficientemente que ou ficavam presos à estratégia de Mário Soares e Eanes para o novo regime (Soares criou Eanes como candidato fraco à presidência na esperança de o substituir mais tarde ou mais cedo — mas nunca teve ilusões sobre o seu moralismo militar e, no fundo, detestava a figura do general), ou afrontavam o PREC e os seus herdeiros. Quando Sá Carneiro tenta a última aproximação com Soares (ele seria primeiro-ministro e Soares o primeiro presidente civil — o que significaria a antecipação do fim do papel político dos militares), Soares não avaliou correctamente a situação (como não avaliaria mais tarde, na sua candidatura contra Freitas) e tomou os seus desejos por realidade, como de costume, confiando na ideia de que a sua genialidade lhe bastava. Enganou-se: daí a poucos meses, o PS ficaria reduzido a 27% e Sá Carneiro conquistaria a primeira maioria absoluta de direita com a AD. É dessa época, aliás, que datam alguns dos episódios mais edificantes do moralismo de esquerda, com críticas do próprio Soares à «relação extra-conjugal» de Sá Carneiro com Snu Abecassis, um assunto que o PS levaria inclusive para o parlamento e que Eanes explorou no seu confronto posterior com o primeiro-ministro que foi obrigado a nomear. Sá Carneiro alimentou sonhos demasiado altos — desde o de um país libertado do provincianismo até à ideia de ser presidente da República (os ataques baixos a Snu foram definitivos na decisão de abandonar o projecto presidencial). Viu, antes de outros (a geração do Semanário, por exemplo, que acabou por assumir uma parte da sua herança civilista e anti-socialista), o que seria esse país dirigido por militares, contemporizador, servil, pequenino. As suas características bipolares não poderiam ajudá-lo; as suas sucessivas depressões foram dolorosas; a história do seu casamento é a de «Um Adeus Português» ao contrário (ele teve a sorte que não teve O'Neill, mas também a coragem que O'Neill não poderia ter na época), e que Agustina Bessa-Luís retrata em Os Meninos de Ouro com a habitual e justa crueldade. A morte prematura faz dele um herói literário que Miguel Real analisa (em O Último Minuto na Vida de S.) e acaba para transferir para Snu Abecassis, transformando «o último grande amor português» num combate contra o país arcaico, mau, mesquinho, moralista, conspirador, falsamente republicano, oligárquico e herdeiro da Inquisição. Temos poucas biografias entre nós; a de Miguel Pinheiro é um retrato em pano cru de um dos últimos cometas trágicos da nossa política; o que lhe falta em interpretação sobra-lhe em petite histoire deliciosa, em registo factual, em documentação reunida e em entrevistas com actores da época (só isso justifica a abundância de reconstituição de diálogos). O desenho que se vai formando é o de um homem contraditório que prepara, sem o saber, a sua própria biografia como um dos primeiros desiludidos com a revolução e com a fé.

[FJV]

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sugestões



Martin Gilbert, biógrafo oficial de Winston Churchill, tem novo livro na praça: uma monumental História do Século XX (Dom Quixote). Para ler nos intervalos da odisseia, a poesia de Ferreira Gullar (Em Alguma Parte Alguma, Ulisseia), Prémio Camões em 2010 e que concedeu esta entrevista supimpa ao Público.
[JPC]

domingo, 24 de outubro de 2010

Sugestões



Manuela Gonzaga conta-nos uma história verídica do princípio do século XX português que nos educa e instrói: a paixão da filha do fundador do "Diário de Notícias" e mulher do administrador pelo seu motorista. Acusada de louca pelo marido, viu eminentes médicos como Júlio de Matos, Egas Moniz e Sobral Cid emitirem pareceres no sentido da sua loucura e da necessidade do seu internamento com base em doenças como a menopausa e a ovarite. Maria Adelaide esteve internada em hospitais psiquiátricos durante anos, de onde conseguiu fugir, lutando por se defender do poder masculino, económico e científico da época, numa odisseia dolorosa que vale a pena conhecer. Uma leitura para qualquer hora do dia.


O site wikileaks.org é um dos heróis do ciberespaço, trazendo-nos informação impensável sobre diversos temas. Mais conhecido pela divulgação de numerosos documentos oficiais norte-americanos sobre a guerra no Afeganistão, há alguns meses, traz-nos agora centenas de milhares de documentos sobre a guerra do Iraque, uma guerra de uma violência inaudita que destruiu (e continua a destruir) incontáveis vidas e famílias mas que cumpriu o seu único objectivo: assegurar o fornecimento do petróleo ao Império. [FTM]

sábado, 23 de outubro de 2010

Sugestões - I

Apesar de a República caminhar para o seu fim, digo, as comemorações do centenário da 1.ª República caminharem para o seu fim, ainda vale a pena ler alguns dos inúmeros livros publicados sobre esse período, nem glorioso nem vergonhoso, da nossa história recente.
António José Telo, neste excelente livro, chama-lhe, numa expressão divertida, um "regime bizarro e cheio de paradoxos". Também eu, tal como o autor, tinha (e tenho) um fascínio pela 1.ª República, pelo facto de ser um regime "democrático" por oposição à "ditadura" do Estado Novo. E, embora as inúmeras versões revisionistas da nossa História nos levem a reconsiderar os conceitos de "democracia" e de "ditadura" quando aplicados a estes períodos, nem por isso a 1.ª República passou a ser uma ditadura, nem o Estado Novo uma democracia. Parece-me, claro ...
[FTM]

Sugestões - II


José Luis Saldanha Sanches era uma pessoa séria e de qualidade e o seu último trabalho, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e escrito já na cama n.º 56 do hospital, é, igualmente, sério e de qualidade.
Definindo conceitos essenciais sobre a fiscalidade e a história da justiça fiscal, Saldanha Sanches explica-nos algumas coisas importantes tais como que "entre as condições hoje consideradas necessárias para o crescimento económico podemos considerar itens como programas eficientes para reduzir a pobreza, criação de redes de segurança social eficazes ou normas estruturais que combatam com sucesso a corrupção e (mesmo antes da crise de 2008) uma boa regulação dos mercados financeiros."
Nestes tempos de toque a finados do Estado Social em que os infractores saiem beneficiados, convém ter presentes estas verdades...
[FTM]

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Sugestões



Alberto Gonçalves escreve no Diário de Notícias e na revista Sábado onde, semana após semana, contribui para os serviços de cardiologia do Sistema Nacional de Saúde. Sem motivo: estivesse o país habituado à crítica irónica, independente e inteligente e as válvulas continuavam a bombar com normalidade e riso. O seu último livro é Ninguém Diga Que Está Bem. Mas eu digo: o livro está muito bem. [JPC]

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Engenharia













Todos nós entendemos de engenharia financeira. Trata-se, em resumo, de obter financiamento e de garantir receitas com alguma antecipação. Uma vasta geração de optimistas tomou conta do poder com a ideia de que a engenharia financeira era desculpável e alienável, esquecendo coisas como dívida pública, dívida externa e dívida das famílias. A maior parte dos teóricos da «engenharia financeira do Estado», como da «engenharia social», pode ser bem intencionada. As boas intenções são sempre lamentáveis porque acumulam desculpas sobre desculpas, e tratam os cépticos como «economicistas» ou «conservadores» diante do grande magistério de ousadia que representam as suas políticas de alto endividamento. Basicamente, toda a gente percebe que se gastou mais do que se devia. A única engenharia possível é a que garanta condições de financiamento da economia, coisa que não se consegue enquanto não se alterarem os comportamentos do Estado e das pessoas. Chama-se a isso temperança. Uma coisa muito conservadora.
[FJV]

Empresas amigas

Um dos flagelos do regime é a existência de empresas amigas. Estão no Orçamento de Estado — pagamos muitas das parcerias, desembolsamos muitos dos apoios às empresas amigas do Estado, que, em Portugal, se confunde muito com o governo. Por isso acho estranho que Pedro Passos Coelho peça, como uma condição essencial, que o Estado «apoie as empresas». O único apoio que as empresas devem ter do Estado é permitir que as deixem trabalhar. Aos cidadãos, que se lhes permita viver. O Estado que se meta na sua vida, que faça as suas contas, que nos deixe em paz.
[FJV]

Voltámos




















Depois da primeira emissão da nova série de A Torto e a Direito (que contou com a presença de Miguel Portas, eurodeputado do Bloco de Esquerda, como convidado), a equipa-base (faltou a Rita Severino, excelente produtora do programa) reuniu — para jantar. Foi no Mãe d’Água/La Cocina de Angel, no Jardim das Amoreiras, em Lisboa, que nos encontrámos para, imagine-se, discutir as próximas eleições e aprovar o orçamento, tudo ao mesmo tempo. Algumas imagens dão conta do grande sentido de responsabilidade (coisa muito pedida, ultimamente) da equipa.
[FJV]

Sugestões de sábado passado











Roger Scruton, The Uses of Pessimism (Atlantic Books): em tempos de crise, um dos grandes filósofos contemporâneos aborda questões contemporâneas alertando para os riscos do optimismo – como uma dependência do sistema político actual.











Não concordando com muitas das posições de Margarida Santos Lopes (jornalista do Público) quando se trata do Médio Oriente, não tenho dúvidas em afirmar que o seu Dicionário é um elemento fundamental de trabalho e o testemunho de um espírito que busca esclarecimento e que se dedica ao tema com grande honestidade.
[FJV]

Dois posts a reter.

«Estes são os melhores anos de Portugal. Não temos ilusões e está tudo por fazer. Nada esperamos da Europa, das obras públicas ou da canalha que nos prometeu o céu.»
Luís M. Jorge, no Vida Breve

«Somos todos iguais – eis o que se descobre nos autocarros – um igualitarismo rodoviário, co-financiado pelo Estado, não vale a pena simular enjoos perante o que se ouve, a pornografia da alma é uma grande conquista das nossas sociedades, todos nus e de mãos dadas num reality-show ininterrupto.»
Bruno Vieira do Amaral, no A Douta Ignorância
[FJV]

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Estado Social

Esta é uma interessante questão: saber exactamente quando o primeiro-ministro descobriu a existência do Estado Social. Esta manhã, leio no Diário Económico as declarações de José Sócrates: este orçamento «protege o emprego e protege o modelo social». Não podia ser mais delirante. A questão não é nova e tem a ver com a interessante definição de «esquerda» praticada pelo primeiro-ministro – várias vezes, ao longo da sua primeira legislatura, e temendo que os deuses do socialismo se voltassem contra ele, José Sócrates apareceu em público defendendo que as suas medidas eram «de esquerda». Passaram a ser «de esquerda» o código de trabalho, o computador Magalhães, o défice, o casamento de pessoas do mesmo sexo, a regionalização, o Instituto do Azeite, o Observatório das Aves, tudo o que o governo decidisse ser «de esquerda». Era «de esquerda» aquilo que o o primeiro-ministro entendia ser «de esquerda». Com o Estado Social passa-se exactamente a mesma coisa: o primeiro-ministro, pra ser «de esquerda», elegeu a defesa do Estado Social como uma das suas prioridades; é uma questão de princípio. Se toma medidas contrárias ao Estado Social, isso não tem qualquer relevância – trata-se de defender o Estado Social, mesmo se estas medidas contrariam as anteriores, tomadas em defesa e promoção do Estado Social. Trata-se de defender uma linguagem, esperando que ela substitua a realidade propriamente dita.
[FJV]

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Sugestões


A análise do discurso e dos discursos de Oliveira Salazar na dissertação do mestrado de José Martinho Gaspar. Convém não esquecer:
«Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e a sua História; não discutimos a autoridade e o seu prestígio; não discutimos a família e a sua moral; não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.»
Era um tempo de certezas...
[FTM]

sábado, 8 de maio de 2010

Sugestões II


Se gosta de História e de pequenas histórias de pessoas reais, vai gostar deste livro de José Pedro Castanheira que, após uma exaustiva investigação, nos relata o que foi a vida de Ayres Azevedo, um «cientista português no coração da Alemanha nazi» dedicado a investigar «ciências raciais», «higiene racial e demográfica» e «anormalidade em cruzamentos raciais»
Regressado a Portugal, curiosamente, foi maltratado pela Academia...
[FTM]

Sugestões I

O MES foi um movimento político que nasceu, se desenvolveu e morreu entre 1970 e 1981. Situado, em termos tradicionais, na extrema esquerda não marxista-leninista, nele militaram personalidades tão variadas quanto Jorge Sampaio, Nuno Teotónio Pereira, José Galamba de Oliveira e Ferro Rodrigues. E um mestre que nos abandonou demasiado cedo: Victor Wengorovius.
Este livro relata-nos essa "improvável aventura" através da pena de dois dos seus recomendáveis militantes: Paulo Bárcia e António Silva.
A ler, especialmente se viveu com interesse e intensidade, o pós-25 de Abril de 1974.
[FTM]

Acção directa

O deputado Ricardo Rodrigues ao apossar-se do gravador dos jornalistas da revista Sábado por não estar a gostar da entrevista dá, pelo menos, a noção da desorientação em que estava. Ao intentar uma providência cautelar e ao entregar o gravador a um "fiel depositário", como foi dito, está a "fugir para a frente" e a contribuir para a judicialização da política.
Embora este episódio possa não ser mais do que um "fait divers" é, seguramente, um lamentável "fait divers"...
[FTM]

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Sugestões

A tese de doutoramento do Pe. João Seabra, que é também licenciado em Direito, passa a ser um livro essencial para quem se interessa pela 1.ª República e pelo anticlericalismo.
Confesso que ainda só o folheei mas sei, pelo menos, duas coisas:
1. É um livro bem escrito, cheio de informação útil e que toma partido;
2. Irei discordar de muitos dos seus pressupostos, opiniões e conclusões.
Recomendo, pois, sem quaisquer dúvidas, a sua leitura .
[FTM]

Sugestões


Churchill dizia que era o pior regime, com a excepção de todos os outros. John Keane, em Vida e Morte da Democracia (Edições 70), concorda, traçando uma história da democracia desde os Gregos até hoje. Deixa avisos. Os mesmos que Tocqueville deixou há quase dois séculos: nenhuma democracia sobrevive sem vigilância permanente. Uma lembrança apropriada, sobretudo com evidências destas.
[JPC]

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Lá como cá...

Sarkozy anuncia que quer que deixem de ser pagas as prestações sociais aos pais que não garantam a assiduidade escolar escolar dos filhos.
O problema, parece, é que a medida já está prevista na lei, com um pequeno interregno, há mais de 50 anos mas não é eficaz, nem útil nem justa, correndo-se o risco de, na situação de crise económica em que vivemos, empurrar para maior miséria ... alguns miseráveis.
Basta pensar que as razões para o absentismo podem ser diversas para se vislumbrar as injustiças possíveis. E não será o corte das prestações sociais que irá ressuscitar a autoridade na família. Se quiser saber um pouco mais sobre o assunto, aconselho uma visita ao Libération.
[FTM]

Sugestões


Inspirados pela nova-iorquina The New Criterion (pessoalmente, a melhor revista highbrow do mundo), jovens intelectuais paulistanos ergueram a Dicta & Contradicta. Para aperitivo, a malta tem um blogue.
[JPC]

«Intolerâncias»

Como seria de esperar, a visita do Papa a Portugal já deu origem a uma pequena e comovente polémica sobre a tolerância de ponto decretada pelo Governo. Os fanáticos do costume decretaram que pretendiam trabalhar nesses três dias a bem da separação do Estado e da Igreja e – pasme-se – em prol da produtividade nacional que, na sua douta opinião, não pode ser abalada pela visita de um "líder religioso qualquer" que decida deslocar-se ao nosso país. Até a CIP e as centrais sindicais, esses pilares da nossa economia, se pronunciaram patrioticamente contra a decisão tomada pelo Governo, alertando para a crise em que vivemos e para a necessidade dos funcionários públicos contribuírem, com o seu trabalho, para o aumento da produtividade e para o desenvolvimento da pátria.
É evidente que este reconhecimento súbito do estado em que nos encontramos não deixa de ser salutar, sendo de esperar, nomeadamente por parte dos sindicatos, exemplos futuros de responsabilidade e compreensão pela situação em que se encontram as finanças públicas e a economia portuguesa. Custa-me a crer que sindicalistas, tão atentos aos custos da visita do Papa, se entretenham depois a promover greves que, para além de não levarem em linha de conta a crise em que nos encontramos, não contribuem certamente para o dito aumento da produtividade. Tudo isto seria um pouco ridículo – e é – se por trás destes nobres objectivos não se escondesse o velho preconceito contra a Igreja e o zelo anticlerical de meia dúzia de figuras públicas, sempre em busca de crucifixos nas escolas e de outros sinais religiosos no espaço público. Ao contrário do que tem sido dito, o que está em causa não é a neutralidade do Estado em relação às diversas religiões, mas a incapacidade de perceber que, num país de tradição católica, o Papa não é um "líder religioso qualquer", como tem sido amplamente referido.
Pretender equipar a visita de Bento XVI à visita de qualquer outro líder religioso (hindu ou muçulmano, como já vi defender) é não compreender a realidade portuguesa e desconhecer totalmente a sua história. Há uma ligação entre o País (e o ocidente, em geral) e a Igreja que um Estado laico deve saber reconhecer. Um Estado laico não é sinónimo de um Estado anti-religioso, incapaz de compreender a dimensão pública da fé. E a crer nalgumas coisas que por aí têm sido escritas, dá ideia de que o Papa, não lhe sendo retirado o direito de viajar pelo mundo, devia ter, pelo menos, a decência de o fazer clandestinamente. De forma a não importunar ninguém. Porque o problema é que este Papa, em particular, importuna.

[CCS, Correio da Manhã]

Sugestões


Uma leitura emocionante através de uma viagem pelo interior da vida de um ditador e de uma ditadura sul-americana. Ingenuidade, perversão, maldade, raiva e ódio entre outros ingredientes. O livro já tem uns anos mas, se não o leu, pode agora comprá-lo por 7,50 euros. Não se arrependerá.
[FTM]

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Sugestões


" As cartas da condessa de Rio Maior permitem-nos reconstituir alguns acontecimentos importantes da História de Portugal e perceber a forma como a alta aristocracia se comportava. Poucas mulheres da sua classe saberiam observar como ela observou, pensar o que ela pensou, escrever como ela escreveu" (Maria Filomena Mónica).
O século XIX tem a vantagem de ser suficientemente longe para ser História e ser suficientemente perto para (quase) sermos testemunhas...
[FTM]

domingo, 11 de abril de 2010

Arranjos económicos, arranjos políticos, arranjinhos









Por que será que quando ouço um empresário português discretear sobre as soluções para os arranjos económicos (não sobre a economia), ouço também — como uma espécie de ruído de fundo – os arranjos políticos que lhe estão na base? Por outro lado, quando um empresário se propõe defender os interesses do Estado, é como se ele estivesse realmente lá dentro, manobrando a máquina propriamente dita. Golden share é isto mesmo: «Ai o que será de nós se se acaba a golden share?»
[FJV]

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Sugestões

Música de fusão ? Talvez ...
Música de sedução ? De certeza !
A guitarra portuguesa e a cítara, de cordas dadas, criaram neste "Lis Goa", um universo sonoro e visual que vale mesmo a pena percorrer. Para além de mestre António Chainho, pode contar com muitos outros músicos e intérpretes nesta viagem com partida de Portugal, passagem pela Índia e regresso ao nosso país.
Raimund Engelhardt, Paulo Sousa, Natasha Lewis, Isabel Noronha, Tiago Oliveira, Carlos Barreto Xavier e Sónia Shirsat são os co-responsáveis por estes momentos de encantamento que se recomendam vivamente.
[FTM]

quarta-feira, 31 de março de 2010

Sugestões


Já tinha saudades de Isabelle Adjani. Já tinha saudades de Isabelle Adjani em filme competente sobre professora de liceu que sequestra a turma em momento psíquico e existencial de não-retorno. Numa altura em que Portugal fala da indisciplina escolar, O Dia da Saia talvez sirva de aviso.
[JPC]
P.S. - Na Folha, escrevi texto longo sobre o filme. Para os interessados, follow me.

Sugestões


Esta Páscoa não perca todo o seu tempo a ler livros existencialistas. É certo que é sempre bom procurar um sentido para a vida e mesmo encontrá-lo mas também é muito agradável vivê-la sem nenhum sentido. Ou melhor, com um ligeiro sentido musical...
Pode escolher ou acumular: os 4 cd's de Yehudi Menuhin & Stéphane Grappelli são uma edição em promoção, à venda em qualquer loja de discos perto de si, com dezenas de memoráveis adaptações e arranjos musicais.
Já o disco "Evelyn Evelyn" é uma obra que, para já, terá de encomendar no site oficial destas gémeas fictícias que nos trazem uma divertida história e festa musical cheia de humor (negro) e alegria (roxa). Poderá não ser Santa mas será, concerteza, uma Excelente Páscoa...
[FTM]

segunda-feira, 29 de março de 2010

«A receita»

«Esperava uma vitória de Pedro Passos Coelho. Não esperava uma vitória tão folgada. Existem diferenças. Com uma vitória modesta, Passos Coelho teria vários abutres a pairar sobre a sua carcaça. Com uma vitória folgada, Passos Coelho não se limitou a espantar as aves. Ele enfiou-as na gaiola para os próximos tempos: Marcelo continuará na universidade (e no comentário) até às presidenciais de 2016; Rangel rumará para Bruxelas; e Rio ficará no Porto, descendo à capital apenas se a liderança de Passos Coelho falhar. E, para falhar, basta que o novo líder repita os erros do consulado anterior, afastando inimigos internos e diabolizando os externos.
Se afastar os inimigos internos, Passos Coelho fará com os outros o que Ferreira Leite fez com ele: uma espécie de nobilitação à dissidência. E se apostar no atrito político para derrubar Sócrates, o novo PSD estará a fazer um favor ao velho PS. Porque será a economia, e não a política, a selar o destino do primeiro-ministro.
Esperar sem se comprometer podia não ser a receita do ‘jovem’ Passos Coelho. Resta saber se o ‘jovem’, entretanto, vai crescer.»

[JPC, Correio da Manhã, 28/3/2010]

quarta-feira, 24 de março de 2010

Google v. China

A Google decidiu acabar com o "casamento de conveniência" com as autoridades chinesas que permitia a censura das buscas feitas através do Google China. A partir de agora, as buscas são redireccionadas para o site da Google em Hong-Kong sem censuras.
Claro que as autoridades chinesas podem bloquear o acesso a esse site e, por isso mesmo, a Google criou uma página com um gráfico onde se pode acompanhar diariamente o tipo de dificuldades criados pelas autoridades chinesas no acesso a diverso tipo de serviços.
É uma decisão que indiscutivelmente se deve aplaudir, independentemente de poder, também, ter sido influenciada pelos resultados menos brilhantes que a Google tem tido no mercado chinês.
PS. Na nossa tradição portuguesa, nunca podemos dizer bem de nada nem de ninguém, sem logo referir uma qualquer mácula, mesmo que de um passado longínquo, do elogiado ...
[FTM]